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Pierpaolo Piccioli e a reconstrução sensível da Balenciaga

Durante anos, a Balenciaga foi sinônimo de ruptura. Sob a direção criativa de Demna, a maison construiu uma linguagem marcada pelo cinismo visual, pela ironia agressiva e pela estetização do colapso contemporâneo. Era uma moda que refletia o mundo em estado bruto: urbano, ansioso, saturado de imagens e tensão política. Essa estética foi não apenas coerente com seu tempo, mas decisiva para redefinir o luxo nas últimas décadas.

A chegada de Pierpaolo Piccioli inaugura, no entanto, um movimento de inflexão radical — não uma negação do passado recente, mas um deslocamento consciente. Em vez do choque, ele propõe o cuidado. Em vez da distância conceitual, o corpo. Em vez da performance sombria, a presença. Ele reconhece a importância de Demna — chega a homenageá-lo ao lado de Cristóbal em seu desfile de estreia —, mas deixa claro que sua visão aponta para outro horizonte. Um horizonte menos sombrio, menos performático, mais interessado em presença e cuidado.

“Acho que o mundo cínico e sombrio não é mais jovem. É para fingir ser mais jovem. Não há nada pior do que tentar ser descolado e não ser você mesmo.”
Pierpaolo Piccioli em entrevista para o Bof.

Essa frase funciona quase como um manifesto. Piccioli não está interessado em repetir códigos que já se tornaram fórmula. Sua Balenciaga nasce do desejo de desarmar a moda — torná-la novamente um espaço de conversa entre roupa e corpo, entre gesto e identidade. E é nesse ponto que sua proposta de mesclar alta-costura e athleisure se revela menos estética e mais filosófica.

O athleisure, aqui, não aparece como tendência comercial ou linguagem jovem caricata. Ele surge como território simbólico.

 “O esporte é uma forma de expressar valores como integridade e igualdade. Quando você entra em campo ou na quadra, pode quebrar as regras da declaração social, da identidade, da cultura.” 
Pierpaolo Piccioli em entrevista para o Bof.

O que vemos na coleção é exatamente isso: roupas que suspendem hierarquias, que neutralizam performances sociais e colocam todos os corpos em um mesmo plano de experiência.

Ao mesmo tempo, a alta-costura retorna não como espetáculo distante, mas como prática íntima. Essa virada fica ainda mais evidente na coleção pre-fall 2026, onde Piccioli reorganiza os pilares comerciais da Balenciaga sem esvaziá-los. O streetwear e o sportswear continuam centrais, mas agora atravessados por uma lógica de athleisure sofisticado, tecidos hiper tecnológicos e roupas pensadas como extensão sensível do corpo. Não se trata de tecnologia como fetiche futurista, mas como ferramenta de escuta

“Quero voltar à cultura da alta-costura como cuidado, como ter uma conversa com o corpo”
Pierpaolo Piccioli em entrevista para o Bof.

E essa conversa se torna especialmente relevante em uma geração que pensa o vestir a partir do bem-estar, da mobilidade e da consciência corporal.

Macacão da coleção de Pierpaolo Piccioli para a Balenciaga. A peça traduz o athleisure em sua forma mais elevada: um tecido anatômico que acompanha o corpo como segunda pele, pensado a partir da lógica do conforto e do cuidado. O boné introduz o streetwear, mas com desenho depurado, quase escultórico, enquanto a maxi bag amplia a silhueta e ancora o look no presente. Nos pés, os sapatos da colaboração com Manolo Blahnik funcionam como contraponto clássico — onde alta-costura e esporte não competem, mas coexistem.

O esporte surge como linguagem política e simbólica. Não por acaso, Piccioli investe em colaborações estratégicas que ampliam esse discurso. A parceria com Manolo Blahnik, nos sapatos, aproxima a Balenciaga de um imaginário clássico de feminilidade e precisão artesanal, enquanto as jaquetas varsity e bolsas inspiradas no basquete, em colaboração com a NBA, traduzem o esporte como espaço de igualdade e suspensão de hierarquias. 

Essa ideia atravessa toda a coleção. Um short jeans aparentemente banal divide espaço com peças de construção sofisticada, roupas técnicas convivem com silhuetas clássicas, e o luxo deixa de ser espetáculo para se tornar experiência. Piccioli parece interessado em devolver à Balenciaga algo que havia se perdido em meio ao excesso de discurso: a possibilidade de normalidade como valor estético. Não a normalidade apática, mas aquela que dispensa performance constante.

Nas imagens acima, outros looks da coleção revelam com clareza como Pierpaolo Piccioli faz o athleisure e a alta-costura dialogarem de forma orgânica e intencional. Das bolsas de acabamento impecável às jaquetas de couro com desenho elegante e inesperado, tudo opera dentro de uma mesma lógica estética. Tecidos técnicos aparecem combinados a peças tradicionalmente casuais, como o short jeans, enquanto roupas de academia ganham novas camadas de significado quando sobrepostas a sobretudos de camurça. O resultado é uma construção visual coerente e precisa, que inaugura uma estética inédita para a Balenciaga — em ruptura direta com o imaginário dominante da década anterior, mas sem apagar sua herança.
O sobretudo inteiramente confeccionado em paetês surge em um contraste deliberado quando combinado a tênis esportivos e a uma roupa integralmente inspirada no vestuário de treino, reafirmando a intenção de Piccioli de borrar fronteiras entre função e ornamento. Em seguida, o pea coat de corte estrutural e preciso aparece combinado a uma calça jeans mais curta, criando uma silhueta que equilibra rigor e casualidade sem perder força visual. A jaqueta de couro, mais despojada, mas ainda assim elegantemente construída, ganha peso simbólico com o nome da maison grafado em tachas nas costas — um gesto de afirmação identitária que dialoga com o streetwear sem se submeter a ele. O desfile se encerra com uma saia combinada a uma camisa estampada e luvas de couro, uma composição que reforça a elegância contemporânea da coleção, onde o gesto esportivo, o clássico e o luxo coexistem sem hierarquia.
O primeiro look foi, sem dúvida, o meu favorito. A proposta é radicalmente streetwear, mas conduzida com inteligência e tensão estética: a camisa e a bermuda oversized ganham outro estatuto quando combinadas a um salto alto fino, criando um contraste preciso entre informalidade e rigor. O moletom aparece sobreposto à camisa e à gravata, enquanto uma camisa inteiramente em couro, marcada pela estampa da maison, reforça o peso simbólico da marca. A jaqueta varsity — clara referência às jaquetas colegiais americanas — surge combinada a luvas de couro, tensionando ainda mais a leitura entre juventude, luxo e performance. O encerramento se dá com um vestido verde-água, construído para remeter à textura de escamas, quase como uma pele em mutação, reforçando a ideia de transformação que atravessa toda a coleção.

O que Pierpaolo Piccioli constrói é, no fundo, uma crítica sutil à própria ideia de juventude como valor estético. Em vez de perseguir códigos jovens, ele prefere ouvir os corpos jovens — que, como ele aponta, pensam cada vez mais em cuidado, em bem-estar, em presença. Essa Balenciaga não tenta parecer atual; ela é atual justamente por recusar a pressa.

Ao mesclar alta-costura e athleisure, Piccioli não cria contraste — cria continuidade. Mostra que o luxo pode existir no cotidiano, que o esporte pode ser poético e que a moda, quando deixa de gritar, pode finalmente voltar a dizer algo essencial. Uma Balenciaga menos cínica, menos performática e, talvez por isso mesmo, profundamente contemporânea.

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Anna Lívia Borges

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