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Ahora todos quieren ser latinos pero les falta… consciência cultural

Quando Bad Bunny se tornou o artista mais ouvido do mundo no Spotify por três anos consecutivos, não foi só uma vitória individual. Foi um marco cultural. Um artista que canta majoritariamente em espanhol dominando uma indústria que sempre priorizou o inglês.

Mas Benito não é apenas números. Ele fala sobre colonialismo em Porto Rico, critica o turismo predatório, questiona padrões de masculinidade, performa gênero de forma política, usa saia, pinta as unhas, denuncia violência contra mulheres e se posiciona contra injustiças sociais. Ele é produto de um território que é colônia dos Estados Unidos.

A ascensão dele não é só musical. É geopolítica.

Enquanto isso, trends como “Latina Core”, “Brazilian Core”, “Tropical Core” explodem nas redes. De repente, todo mundo quer:

Moodboard representando a estética “Tropical Core”
  • Pele bronzeada

  • Cabelo volumoso

  • Brilho labial

  • Argolas douradas

  • Unhas grandes

  • Ritmo latino no fundo dos vídeos

  • Um reggaeton remixado com beat eletrônico

Mas estética não é identidade. Estética é superfície. Identidade é estrutura.

O que é Latina Core e Brazilian Core?

Latina Core é a romantização visual da mulher latina: sensual, confiante, calorosa, sempre com energia de verão eterno. É um compilado de referências que misturam cultura caribenha, mexicana, colombiana, brasileira, tudo em um único moodboard.

Brazilian Core surge com foco em:

  • Praia

  • Bronzeado natural

  • Corpo livre

  • Havaianas

  • Funk

  • Biquínis minimalistas

  • Cultura de verão o ano inteiro

Mulher Latina nas praias do Rio de Janeiro

Mas aqui está o ponto: essas estéticas isolam o que é “consumível” e ignoram o que é estrutural.

Não falam sobre desigualdade.
Não falam sobre racismo estrutural.
Não falam sobre violência policial nas periferias.
Não falam sobre a herança africana e indígena que construiu essas culturas.

Transformam vivência em filtro do Instagram.

E o momento político?

Vivemos um cenário em que políticas anti-imigração e discursos xenofóbicos voltam a ganhar força nos Estados Unidos, especialmente com o retorno de narrativas nacionalistas ligadas a Donald Trump.

Latinos são criminalizados.
Imigrantes são desumanizados.
Fronteiras são militarizadas.

Enquanto a cultura latina é consumida como tendência, pessoas latinas continuam sendo algemadas, detidas e deportadas.

Ao mesmo tempo, o mercado consome nossa música, nossa estética, nosso ritmo.

É uma contradição violenta: o corpo latino é rejeitado politicamente, mas a cultura latina é desejada economicamente.

Querem o som. Não querem o sujeito.
Querem o ritmo. Não querem a história.

Cultura latina em alta: mas para quem?

Nos últimos meses vimos um movimento interessante e potente de valorização simbólica da cultura brasileira no cenário internacional.

A marca Havaianas foi destaque na Semana de Moda de Copenhague e logo depois apareceu em relatórios do Lyst como item desejado globalmente.

A estilista brasileira Mayari Jubini, fundadora da marca Artemisi, teve peças usadas por artistas internacionais.

A bateria da Estação Primeira de Mangueira levou o som do samba para a Paris Fashion Week.

Grandes marcas internacionais colocaram funk como trilha sonora de desfiles.

Bad Bunny venceu o Grammy de Álbum do Ano e, apenas uma semana depois, transformou o palco do Super Bowl, o maior símbolo do entretenimento e da cultura americana, em uma celebração explícita da cultura latina, ocupando com orgulho um espaço historicamente dominado pela narrativa anglo-saxônica.

O que isso significa?

Significa que nossa cultura é forte. Que ela sempre foi sofisticada. Que ela sempre teve potência estética e política.

Mas também levanta uma pergunta incômoda: precisamos que a Europa valide o que já é nosso para que a gente passe a valorizar?

A contradição brasileira

Enquanto usamos músicas latinas nos stories como forma de protesto ou identidade, repetimos discursos como:

“Filme brasileiro é ruim.”
“Moda brasileira não é sofisticada.”
“Cosmético nacional não presta.”

Consumimos marcas americanas.
Pagamos caro para importar produto europeu.
Sonhamos em fazer turismo fora do país enquanto ignoramos nossa própria diversidade cultural.

Se queremos uma peça de renda ou crochê, corremos para a Shein, compramos algo barato, entregue em poucos dias, provavelmente produzido em escala industrial e, muitas vezes, sustentado por cadeias de trabalho exploratórias que atingem justamente mulheres latino-americanas e asiáticas. Enquanto isso, ignoramos o Sul do nosso próprio país, onde o crochê, a renda renascença, o bilro e tantas outras técnicas são feitas à mão, ponto por ponto, por artesãs que carregam tradição, memória e sustento familiar naquele fio.

Mulher rendeira em Maceió, transformando fios em arte com suas próprias mãos.

Reclamamos de imposto, mas pagamos mais caro para consumir o que vem de fora.

Existe uma colonialidade internalizada. Uma ideia de que o que é estrangeiro é melhor. De que o que é europeu é mais elegante. De que o que é americano é mais moderno.

E aí surge a pergunta:

O Latina Core está em alta… mas será que está entre nós? Ou estamos apenas surfando o hype da nossa própria cultura enquanto continuamos desejando ser outra coisa?

Carnaval, luxo e representação

No Carnaval de 2026, a Unidos do Viradouro foi campeã com um desfile impecável, homenageando seu mestre de bateria Ciça. A rainha da escola foi Juliana Paes.

Ela estava deslumbrante na Sapucaí. A escola mereceu o título. O espetáculo foi grandioso.

Mas um detalhe gerou discussão: o figurino da rainha era assinado pela Dolce & Gabbana.

Juliana Paes rainah de bateria da Unidos da Viradouro campeã dos desfiles das escolas de samba de 2026 vestindo roupa carnavalesca feita pela grife Europeia Dolce & Gabanna.

Não é um ataque à atriz. Não é um ataque à escola. A roupa estava esplêndida. Mas é simbólico.

O Carnaval nasce da periferia.
Tem raiz africana.
Tem base em religiões marginalizadas.
É resistência cultural.

Por que, em um momento de celebração máxima da cultura brasileira, escolhemos ser representados por uma casa de luxo europeia envolvida em diversas polêmicas ao longo dos anos, em vez de um estilista local?

É sobre simbologia.
É sobre narrativa.
É sobre quem legitima quem.

Baianas festejando o carnaval nas ruas de Pernambuco.

Não somos tendência. Somos um continente.

Latino não é filtro quente.
Não é batom gloss.
Não é música acelerada.

Somos resultado de colonização, escravidão, apagamento, resistência, miscigenação forçada, desigualdade estrutural.

Somos herdeiros de povos indígenas massacrados.
De populações africanas sequestradas.
De ditaduras militares.
De interferências estrangeiras.

E mesmo assim, produzimos cultura vibrante, inovadora, revolucionária.

A questão não é o mundo nos consumir.
A questão é nós nos consumirmos.

Apropriação pelo hype e a falta de educação cultural

Quando alguém usa reggaeton no story mas não sabe apontar a América Latina no mapa.
Quando alguém usa camiseta com bandeira do Brasil mas acha que cultura brasileira é só praia, Carnaval ou copa do mundo.
Quando alguém posta “orgulho latino” mas apoia um presidente ditador e xenofóbico.

Existe uma lacuna de educação cultural.

Dentro e fora do país.

Educação cultural significa entender contexto.
Significa saber que funk não nasceu para ser trilha de desfile de luxo, ele nasceu como expressão da favela.
Que o samba foi criminalizado.
Que religiões de matriz africana ainda sofrem intolerância.

Isso é entender que “ ser latina” não é uma fantasia.

O que está em jogo?

Estamos vivendo um momento político em que identidades estão sendo disputadas. Em que fronteiras são reforçadas. Em que discursos de exclusão crescem.

E ao mesmo tempo, algoritmos transformam cultura em produto global instantâneo.

A pergunta que fica é:

Estamos valorizando nossa cultura porque entendemos sua potência histórica? Ou porque virou trend?

Por que ainda escolhemos ser representados por marcas que não nos pertencem?
Por que esperamos validação externa para reconhecer nosso valor?

Por que ainda repetimos que o que é nosso é inferior?

O movimento é político

A valorização atual da estética latina é política. É reação. É afirmação. É reconfiguração de poder simbólico.

Mas ela só será transformadora se vier acompanhada de consciência.

Consumir moda local é político.
Assistir cinema nacional é político.
Ler autores latino-americanos é político.
Valorizar marcas independentes é político.
Viajar pelo próprio país é político.

Não é sobre fechar fronteiras culturais.
É sobre equilibrar o jogo.

A Gen Z fala sobre identidade, diversidade, representatividade. Mas também vive hiper conectada a tendências globais.

Entre performar orgulho latino
E ainda desejar validação europeia

Talvez o verdadeiro ato revolucionário agora seja estudar nossa própria cultura com a mesma intensidade que estudamos trends internacionais.

Conclusão: educação cultural é urgência

Não somos uma tendência.
Somos um continente inteiro de histórias, vozes e vivências.

A cultura latina não começou no TikTok.
Não começou na playlist do verão.
Não começou quando virou hashtag.

Ela sempre esteve aqui.

Se o mundo finalmente está olhando para nós, ótimo.
Mas precisamos olhar para nós mesmos primeiro.

Porque ser latino não é usar reggaeton no story.
É entender o que aquele som carrega.

É reconhecer que nossa estética nasce de sobrevivência, resistência e criatividade.

E que, se não tivermos educação cultural dentro e fora do nosso país corremos o risco de transformar nossa própria identidade em fantasia exportável.

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Anna Lívia Borges

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