Percebi isso aos poucos, quase como quem observa um padrão se repetir em silêncio: homens ficam mais idiotas quando estão em bando. Não no sentido infantil da palavra, mas no sentido social, performático, quase ritualístico. Algo se desloca neles quando há outros homens por perto. A fala muda, o corpo endurece, o tom sobe. O humor fica mais agressivo, o gesto mais exagerado, a presença mais ensaiada. Tudo vira performance. Tudo vira teste. Tudo vira uma tentativa incessante de provar alguma coisa — e não para mulheres, como eles insistem em dizer, mas uns para os outros.
Foi a partir dessa observação que comecei a conversar com meu melhor amigo — que, por acaso, é um homem. Entre trocas, e inquietações compartilhadas, essa crônica começou a se formar. E com ela, a pergunta que me perseguiu ao longo da última semana, quase como um ruído constante no fundo da cabeça: qual é, afinal, a meta dos homens quando eles querem tanto agradar outros homens?
Para conseguir material crítico suficiente e escrever com responsabilidade sobre isso, precisei descer à escuridão da internet e observar o homem em seu habitat mais convencional e mais obscuro da contemporaneidade: os fóruns, os comentários, os grupos fechados, os vídeos que não chegam ao algoritmo feminino. Fui mais fundo do que gostaria, mas o suficiente para entender que ali não existe desorganização — existe método.
Foi nesse mergulho que encontrei a chamada Manosphere — que, confesso, parece nome de Pokémon, mas é tudo menos inocente. Trata-se de um ecossistema de fóruns, blogs, canais e comunidades online formados por homens que discutem masculinidade a partir de uma lógica hierárquica, competitiva e profundamente reacionária. Seu eixo central não é o afeto, nem o desejo, nem a troca: é a validação masculina entre pares, a construção de status e a definição de um modelo ideal de homem que será reconhecido como homem apenas pelo olhar de outros homens.
Dentro da Manosphere coexistem diversos subgrupos. Os incels, homens em celibato involuntário que atribuem sua ausência de vida sexual e social às mulheres e ao feminismo. Os red pills, que acreditam ter despertado para uma suposta “verdade” onde homens precisam retomar poder e controle social. Os MGTOW (Men Going Their Own Way), que dizem se afastar emocionalmente de mulheres enquanto continuam orbitando o feminino como referência simbólica. E, os looksmaxxing: a comunidade masculina que acredita que o fracasso social e afetivo pode ser resolvido por meio de uma equação estética precisa.
Aqui, beleza não é expressão, não é subjetividade, não é desejo. É cálculo. Mandíbula marcada. Maxila projetada. Distância milimétrica entre os olhos. Os chamados hunter eyes. O corpo masculino deixa de ser corpo e se transforma em projeto de engenharia.
Mas quanto mais eu observava, mais algo ficava claro: esse esforço todo não é exatamente para conquistar mulheres. É para impressionar exclusivamente outros homens. Para ser validado por eles. Para subir degraus dentro de uma hierarquia masculina que se retroalimenta de comparação, humilhação e aprovação mútua. O objetivo final não é o amor, nem o encontro, nem o afeto — é se tornar um Chad. O arquétipo máximo da masculinidade idealizada. O homem que todos os outros homens gostariam de ser.
O detalhe que eles parecem ignorar é que, nesse processo, nenhuma mulher está interessada.
E quem avalia? Homens. Quem dá nota? Homens. Quem legitima o esforço? Homens. O olhar desejado é masculino. Sempre foi.
A teórica feminista Adrienne Rich já dizia que as relações centrais da sociedade patriarcal não são heterossexuais, mas homossociais. Homens admiram homens, confiam em homens, constroem alianças com homens. Mulheres, nesse sistema, não são o centro do desejo — são a moeda simbólica. O prêmio. A comprovação de sucesso.
É por isso que o colega do ensino médio briga em toda festa. Que o amigo quer o carro mais caro do ano. Que dois homens comparam o tamanho do próprio pênis no banheiro como se isso fosse um dado legítimo de valor social. Tudo isso é performance. Tudo isso é para outro homem ver.
Quando um incel diz que quer “conquistar mulheres”, o que ele frequentemente quer, na verdade, é deixar de ser invisível para outros homens. Quer ser respeitado, temido, admirado. Quer sair da posição de fracasso dentro da hierarquia masculina. A mulher aparece como consequência, não como finalidade. Como prova de status, não como sujeito de desejo.
E talvez por isso toda essa teia seja menos sobre celibato involuntário e mais sobre solidão masculina. Uma solidão que não encontra espaço para vulnerabilidade, cuidado ou afeto real. Uma solidão que só pode ser mediada por performance, dominação e comparação constante. Homens não aprendem a se amar — aprendem a competir. E quando estão juntos, essa competição se intensifica até virar algo caricato para quem vê de fora.
Do meu ponto de vista, o mais assustador é o que tudo isso revela sobre o pacto masculino: um pacto que exige que homens se moldem, se violentem simbolicamente e se desumanizem para caber em um ideal que ninguém sustenta de verdade. Um pacto em que mulheres são usadas como espelho, nunca como interlocutoras.
Talvez a pergunta correta não seja por que esses homens odeiam tanto as mulheres, mas por que eles precisam tanto da aprovação de outros homens para existir. E por que, nesse processo, se perdem — e muitas vezes se tornam ridículos, vazios ou socialmente inábeis ao olhar feminino.
Para aprofundar essa reflexão e evitar que este texto se encerrasse apenas na perspectiva feminina — que, historicamente, já observa os danos do machismo de fora — decidi trazer hoje um homem para essa conversa. Não como contraponto, mas como testemunho.
Um amigo muito querido, alguém com quem compartilho diálogos honestos e desconfortáveis, se dispôs a abrir sua história de forma rara e generosa. Este espaço, que sempre foi pensado como um lugar de acolhimento e reflexão para mulheres, hoje se expande para ouvir uma voz masculina que não fala a partir do privilégio confortável, mas da fratura.
O que quero mostrar aqui, além de sustentar minhas teorias, é que o pacto masculino também adoece os homens. Que essa pressão — criada e mantida entre eles — cobra um preço alto. E que nem todos conseguem ou querem pagar.
Opinião de um homem que não era considerado homem
Por Dyan Francis Martins de Oliveira¹
Agradeço ao Portal Capsule pelo espaço e pela abertura a um debate necessário e ainda pouco aprofundado. Escrevo como jornalista, pessoa neuroatípica, demissexual, muitas vezes confundido como assexuado, e como alguém que precisou aprender a se observar de fora para compreender como certos comportamentos masculinos não nascem do desejo, mas da pressão.
Nasci com autismo, diagnosticado apenas na adolescência. Antes disso, tudo o que hoje compreendo como traços neurológicos era tratado como excentricidade, falta de jeito ou estranheza. Em casa, na escola e nos círculos sociais, eu era o “esquisito”. Não por agressividade ou isolamento voluntário, mas por não agir conforme o esperado. Durante muito tempo, a pergunta que me acompanhou foi simples e cruel: como posso ser normal?
Minha formação emocional e social também foi marcada pelo ambiente familiar. Cresci em uma casa majoritariamente masculina, convivendo com meu pai e um irmão mais velho. Na adolescência, perdi minha mãe em decorrência de uma enfermidade, o que reduziu ainda mais a presença feminina no cotidiano doméstico. Essa ausência não é um detalhe menor. Ela influenciou diretamente minha forma de compreender afeto, cuidado, diálogo e, mais tarde, minhas dificuldades em entender as dinâmicas entre homens e mulheres para além dos estereótipos reproduzidos socialmente.
Essa confusão ganhou força na pré-adolescência, quando as diferenças entre meninos e meninas deixaram de ser apenas sociais e passaram a carregar expectativas afetivas e sexuais. No quinto ano do ensino fundamental, em uma dessas raras ocasiões em que tentei expressar o que sentia, disse que não sabia ao certo se gostava de meninas. Não era uma declaração de orientação sexual, mas de confusão genuína. Ainda não sentia o que parecia tão óbvio para os outros. A resposta foi imediata: fui rotulado, ridicularizado, empurrado para uma identidade que também não me representava.
Ao mesmo tempo, o ambiente escolar se transformava. O acesso à internet móvel crescia, conteúdos pornográficos circulavam livremente entre adolescentes e revistas impressas ainda passavam de mão em mão. Ser homem, naquele contexto, passou a significar falar de sexo o tempo todo, desejar tudo, objetificar meninas e transformar conquistas em capital social. Para não ser mais o estranho, comecei a imitar.
Esse movimento de adaptação não foi consciente. Foi um mecanismo de sobrevivência. Passei a assumir um personagem hiper masculinizado, machista, performático. Um personagem que não correspondia ao que eu sentia, mas ao que eu achava que precisava ser. Sem os filtros sociais que muitas pessoas atípicas desenvolvem tardiamente, fui além do limite. Tornei-me alguém de quem hoje não me orgulho. Não por maldade, mas por tentativa desesperada de pertencimento.
Enquanto isso, quem me conhecia de verdade dizia que eu parecia assexuado. Eu mesmo não sabia responder. Não entendia meus desejos, nem a ausência deles. Só sabia que, sozinho, não pensava em relações sexuais. Em grupo, especialmente entre homens, sentia a obrigação de pensar. A pressão não vinha de mulheres, vinha dos pares masculinos. Era ali que surgiam frases como “você precisa se aliviar”, “isso não é normal”, “você tem que ir atrás de mulher”.
Esse padrão se estendeu à vida adulta. Mesmo após compreender minha condição neurológica, ainda havia momentos em que, ao reencontrar grupos de amigos longe de suas parceiras, o discurso mudou. A cobrança reaparecia. E com ela, o risco de retornar ao personagem. Um alter ego machista que não me representava, mas que por muito tempo pareceu ser a única forma de aceitação.
Esse mesmo mecanismo se repetiu em outras experiências. Bebi e fumei sem gostar, apenas para ser comum. Descolori cabelo e barba ignorando dores intensas, mesmo tendo hipersensibilidade sensorial documentada. Em uma dessas ocasiões, um barbeiro interrompeu o processo ao perceber queimaduras expostas, enquanto eu simplesmente não conseguia reconhecer que aquele era o limite. Se os outros aguentavam, eu achava que também deveria aguentar.
Houve ainda as amizades com meninas. Relações genuínas, sem segundas intenções, que eram constantemente invalidadas por terceiros. Diziam que amizade entre homem e mulher não existia. Que, se eu não desejava, havia algo errado. Mais uma vez, a pergunta retornava: será que o normal é desejar tudo que se move?
Esses pensamentos quase nunca surgiam quando eu estava sozinho ou em ambientes mistos. Eles apareciam em bandos masculinos, onde o machismo não é apenas tolerado, mas incentivado. Onde comportamentos violentos simbólicos são celebrados como virilidade. Onde homens mais suscetíveis à opinião alheia acabam vestindo personagens que não escolheram.
Hoje, com uma rede de apoio mais saudável, consigo olhar para trás com clareza. Entendo que muito do que se chama de “instinto masculino” é, na verdade, aprendizado social. Um aprendizado que premia excessos nos homens e pune qualquer desvio desse padrão, enquanto condena mulheres pelo mesmo comportamento que aplaude nos meninos.
Minha juventude foi atravessada por essa contradição. Não por desejo, mas por imposição. Não por liberdade, mas por medo de ser excluído. Reconhecer isso não me exime de responsabilidades, mas me permite compreender o quanto o machismo estrutural também produz homens desconectados de si, ensinados a performar algo que não sentem.
Escrevo este texto porque acredito que discutir masculinidades passa também por ouvir aqueles que nunca se encaixaram nelas. E porque talvez questionar o que chamamos de normal seja o primeiro passo para relações mais honestas, menos violentas e mais humanas.
Agradeço novamente à idealizadora do Capsule Letter, alguém que tenho orgulho e honra de chamar de verdadeira amiga. Dizem, inclusive, que às vezes dividimos o mesmo cérebro. Em outros momentos, confesso que dá vontade de dividir o mesmo coração. Quase como uma mãe para mim, uma irmã mais velha, alguém que amo e que me ajuda, com generosidade e cuidado, em todas essas questões.
¹ Dyan Francis é jornalista, formado em Gestão da Comunicação, Administração Pública e Gestão de Marketing e Vendas. Gestor e produtor cultural.
Depois de ler o relato do Dyan, algo se organiza com mais nitidez: o que chamamos de “crise da masculinidade” talvez não seja uma crise nova, mas o colapso de um modelo que sempre funcionou à base da exclusão, do silenciamento emocional e da violência simbólica.
O que a Manosphere revela não é apenas ódio às mulheres, mas uma incapacidade profunda de homens se enxergarem fora da validação masculina. Um sistema em que sentir é fraqueza, hesitar é falha, e existir sem performar é sinônimo de inadequação. Onde o afeto é substituído por hierarquia e o pertencimento precisa ser conquistado à força.
Para nós, mulheres — especialmente mulheres da geração Z, que crescem questionando estruturas, recusando papéis prontos e exigindo relações mais honestas — observar isso é essencial. Não para salvar homens, nem para educá-los, mas para entender de onde vem essa performance constante que tantas vezes nos atravessa, nos violenta e nos cansa.
Talvez a libertação masculina não venha de mais fóruns, mais métricas ou mais performances de virilidade. Talvez venha do colapso desse pacto. Do momento em que homens consigam existir sem precisar provar nada uns aos outros.
Até lá, seguimos observando, nomeando e escrevendo. Porque entender também é uma forma de resistência.
Blog escrito por : Anna Lívia Borges em colaboração com o Jornalista Dyan Francis.
Texto postado simultaneamente no site e newsletter do Capsule letter.
