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O novo imaginário de O Morro dos Ventos Uivantes

Neste texto, recorro a trechos selecionados de uma entrevista concedida pela figurinista Jacqueline Durran à Vogue British, utilizados como apoio crítico e ponto de partida para uma leitura mais ampla sobre o figurino de O Morro dos Ventos Uivantes. As falas aparecem não como reprodução literal, mas como fragmentos interpretados, reorganizados e integrados à análise, respeitando o contexto original da conversa e ampliando seu sentido dentro da narrativa proposta aqui. A entrevista foi editada e condensada para fins editoriais.

Quando o figurino abandona a época e passa a vestir emoções

Publicado originalmente em 1847, O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, atravessou gerações como um dos romances mais intensos e indomáveis da literatura inglesa. A história de Catherine Earnshaw e Heathcliff nunca foi apenas sobre amor — mas sobre obsessão, violência emocional, desejo e pertencimento. Não à toa, o livro já recebeu inúmeras adaptações ao longo do século XX, entre elas a versão muda de 1920, o clássico de 1939 estrelado por Laurence Olivier e releituras marcantes em 1970 e 1992. Ainda assim, poucas ousaram se afastar verdadeiramente da leitura tradicional da obra.

Agora, em 2026, Emerald Fennell propõe algo diferente: uma adaptação que não tenta domesticar o romance, mas amplificar sua fúria. Com Margot Robbie no papel de Catherine Earnshaw e Jacob Elordi como Heathcliff, o filme se apresenta como um épico emocional que recusa o realismo histórico em favor da verdade sensorial.

Essa escolha se torna especialmente evidente no figurino — elemento que deixa de ser decorativo para assumir função narrativa.

Cena do filme " O morro dos ventos uivantes" (1939)

Figurino como linguagem, não como reconstrução

A responsável por essa abordagem é Jacqueline Durran, figurinista vencedora do Oscar e conhecida por transformar roupas em discurso visual. Aqui, ela abandona qualquer compromisso com a fidelidade cronológica estrita para construir um universo híbrido, onde passado, presente e fantasia coexistem.

A própria Durran explica esse ponto de partida em entrevista à Vogue.

Vogue: Como surgiu a ideia estética central para o figurino de O Morro dos Ventos Uivantes?
Emerald já estava trabalhando no filme há mais de um ano quando começamos a conversar. Ela trouxe referências muito diversas — do período Tudor aos anos 1950, além de elementos contemporâneos. Desde o início, o filme nunca foi pensado como uma reconstituição histórica literal, mas como uma fantasia estilizada, quase um sonho febril.”

Essa noção de “sonho febril” atravessa todo o figurino. As roupas não servem ao tempo histórico — servem ao estado emocional dos personagens.

O look natalino de Cathy( Margot Robbie) em O Morro dos Ventos Uivantes (2026)

Catherine Earnshaw: fantasia, excesso e artifício

Quando Catherine adulta surge pela primeira vez em cena, o filme deixa claro seu manifesto estético. Não estamos diante de uma heroína realista, mas de uma figura quase mítica, construída por camadas de referências visuais.

Vogue: Essa é a primeira vez que vemos Cathy adulta. Como você pensou essa apresentação inicial da personagem?
“Queríamos deixar claro logo no início que esta é uma versão estilizada de O Morro dos Ventos Uivantes. Há referências à época, à moda contemporânea e à Velha Hollywood. Não é realista, nem irrealista. É uma fantasia assumida.”

Essa Catherine não caminha pelos campos vestindo contenção. Ela brilha, reflete, ocupa espaço. Ao longo do filme, Margot Robbie usa cerca de 45 a 50 figurinos — número incomum até mesmo para grandes produções — e cada um deles atua como um capítulo emocional distinto da personagem.

O vestido de noiva como metáfora

Nenhum figurino resume melhor essa proposta do que o vestido de casamento de Catherine. Longe das convenções do século XIX, ele surge como um objeto simbólico, quase performático.

Vogue: Quais foram as inspirações para o vestido de noiva de Cathy?
“O vestido mistura moda vitoriana com referências dos anos 1950 — de Winterhalter a Charles James. Também usamos joias vintage da Chanel, inclusive peças aplicadas no cabelo da Margot. Precisávamos de algo que fosse histórico, mas ao mesmo tempo ousado e moderno.”

Passado e presente colidem no mesmo corpo. O resultado não é nostalgia, mas tensão.

Margot Robbie com o vestido de noiva de sua personagemde Cathy, do filme O Morro dos Ventos Uivantes (2026)

Essa tensão se intensifica ainda mais na cena da noite de núpcias — talvez o figurino mais debatido do filme.

Vogue: E o visual da noite de núpcias, que causou tanto debate?
“Emerald me mostrou uma imagem dos anos 1950 de uma mulher envolta em celofane, como um presente com um laço. A ideia era essa: Cathy se torna um presente naquela noite. O tecido não é látex, mas um material sintético ultrabrilhante. O vermelho é uma cor-chave para a personagem.”

Aqui, o figurino deixa de ser roupa e se torna discurso: Catherine como espetáculo, como objeto, como construção social.

O visual de Cathy (Margot Robbie) em O Morro dos Ventos Uivantes, dialoga diretamente com o imaginário criado por Thierry Mugler 1996: transparências líquidas, brilho etéreo e a ideia de um corpo quase irreal. Não se trata de citação literal, mas de memória estética — onde o translúcido, o brilho e a fantasia constroem uma personagem que parece existir entre o desejo, o espetáculo e o sonho.

Luz, sombra e o corpo como superfície

O jogo entre brilho e opacidade aparece de forma especialmente poderosa em um vestido preto de alto impacto visual.

Vogue: Há também um vestido preto de alto brilho que se destaca visualmente.
“Ele foi pensado para cenas ao luar. Quando a luz incide, o vestido reflete quase como se a própria Cathy emanasse aquela luz. Misturamos a forma de um vestido vitoriano com um tecido completamente moderno.”

Edgar Linton (Shazad Latif) & Cathy (Margot Robbie) em O Morro dos Ventos Uivantes. Catherine não apenas recebe luz — ela a devolve. O figurino reforça seu caráter quase sobrenatural, deslocado do mundo real.

Capas, cruzes e o gótico costurado no corpo

Entre os muitos símbolos que atravessam o figurino, a capa vermelha e as cruzes góticas ocupam lugar central.

Vogue: Qual figurino você está mais curiosa para ver no filme finalizado?
“A capa de veludo vermelho que Cathy usa ao retornar ao Morro dos Ventos Uivantes. Capas vermelhas existiam na época, mas a nossa dialoga muito mais com os melodramas dos anos 1950.”

Vogue: Cathy usa muitas cruzes cravejadas. Por quê?
“Essa é uma história gótica, opulenta e estilizada. As cruzes fazem parte desse imaginário e adorávamos espalhá-las pelos figurinos.”

O gótico não é apenas atmosfera — ele está literalmente pendurado no corpo da personagem.

Na imagem à direita, vemos Margot Robbie vestindo a icônica capa vermelha, com a cruz cravejada no peito — um elemento que reforça a estética gótica e revela as referências centrais utilizadas por Jacqueline Durran na construção do figurino. Já à esquerda, a imagem de uma capa histórica evoca os melodramas dos anos 1950, referência direta para essa leitura mais fantasiosa e estilizada do clássico, onde passado e imaginação se encontram no vestir.

Heathcliff: contenção, peso e sombra

Em contraste com o excesso visual de Catherine, Heathcliff surge mais contido, mais próximo de uma leitura histórica — ainda que igualmente simbólica.

Vogue: E o figurino de Heathcliff?
“Pensamos nele como um herói byroniano. Camisas brancas românticas, um longo casaco preto, cores escuras. É um visual clássico, taciturno, muito estabelecido no cinema.”

Se Catherine é brilho e artifício, Heathcliff é sombra e repetição.

Classe, ingenuidade e desconforto social

Os figurinos de Isabella Linton e Edgar Linton aprofundam a leitura psicológica da narrativa.

Vogue: Como você construiu os figurinos de Isabella Linton?
“Fomos muito mais fiéis à década de 1860. Exageramos nos laços, rendas e detalhes. Ela é infantil, ingênua — alguém que passaria o dia todo fazendo enfeites.”

Vogue: E Nelly Dean e Edgar Linton?
“Com Edgar, tudo é brilhante e exagerado — errado para a época, embora as silhuetas sejam corretas. Queríamos representar essa nova riqueza desconfortável.”

A roupa, aqui, revela classe, aspiração e inadequação.

 

Cathy com Isabella Linton, (Alison Oliver.)

Quando o figurino passa a narrar

A entrevista de Jacqueline Durran à Vogue deixa claro que O Morro dos Ventos Uivantes não busca fidelidade histórica, mas verdade emocional. O figurino não situa o espectador no tempo — ele o desloca. Provoca atrito. Traduz visualmente aquilo que Emily Brontë escreveu com palavras: excesso, desejo, violência simbólica e paixão sem controle.

Mais do que vestir personagens, Durran constrói imagens que funcionam como frases visuais. Talvez por isso o filme provoque tanto debate antes mesmo de estrear: suas roupas não querem agradar — querem dizer algo.

Em 2026, esta adaptação promete não apenas revisitar um clássico, mas reafirmar o figurino como linguagem central do cinema contemporâneo.

A estreia de O Morro dos Ventos Uivantes nos cinemas, marcada para 13 de fevereiro de 2026, não parece uma escolha aleatória — ela carrega intenção simbólica. Lançado às vésperas do Dia dos Namorados, o filme de Emerald Fennell confronta diretamente a ideia romantizada do amor, propondo uma leitura mais intensa, violenta e emocionalmente indomável da obra de Emily Brontë.

Confira o trailer abaixo : 

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Anna Lívia Borges

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