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Silêncio nas bancas: O jornalismo de moda está em extinção

No último dia 30, a revista L’Officiel anunciou oficialmente o encerramento das atividades no Brasil. O comunicado veio pelas redes sociais e caiu como uma bomba no mercado editorial e no jornalismo de moda.

Comunicado IG @loffielhommesbr

Segundo o comunicado , o fim da revista foi uma “decisão estratégica” uma frase curta, mas que carrega um peso enorme. Porque quando uma revista como a L’Officiel encerra sua atuação num país como o Brasil, a gente não tá falando só de uma mudança de rota corporativa. A gente tá testemunhando, mais uma vez, o apagamento de um espaço que era dedicado à curadoria, à profundidade e à construção de pensamento estético e cultural.

Mas não se engane: esse não é só o fim de uma revista de moda — é o sintoma de um mercado que não valoriza mais o papel como espaço de pesquisa, reflexão e profundidade. As revistas físicas, que por décadas foram referência em cultura, comportamento e estilo, estão sumindo. E com elas, some também o espaço para um jornalismo que vai além do algoritmo…

O impacto humano: o que se perde quando uma revista fecha?

Fechar uma revista não é como encerrar um app: tem gente envolvida. Muitas. Quando uma publicação como a L’Officiel ou qualquer outra acaba, ela leva com ela toda uma equipe: jornalistas, diagramadores, stylists, fotógrafos, colunistas, editores. Mas leva mais do que isso leva pautas que não vão mais existir, visões que não terão espaço, conversas que vão morrer antes de começar.

O fim das revistas impressas é também o apagamento de vozes que não se encaixam no ritmo e no formato das redes sociais. É o sumiço de matérias que não viralizariam, mas que poderiam mudar o jeito como a gente pensa, se veste ou se relaciona com o mundo. Isso tudo desaparece e quase ninguém nota.

Imagem Pinterest

O Brasil e a crise da leitura

No Brasil, essa situação fica ainda mais crítica. Ler, aqui, é quase um luxo e não por falta de vontade, mas por falta de incentivo e acesso.

Só 16% dos brasileiros compraram um livro no último ano, e o número de pessoas que consomem revistas físicas é ainda menor: apenas 35%( eu faço parte dessa porcentagem ) dizem preferir o formato impresso.

Manter uma revista viva nesse cenário é quase missão impossível. Produção cara, distribuição limitada, baixo retorno comercial. Mesmo com conteúdo de qualidade, as revistas brasileiras lutam pra sobreviver num país onde o hábito da leitura é raro e onde o digital ocupa cada vez mais espaço.

E não, isso não é só um problema brasileiro. A crise das revistas é global.

No Reino Unido, mais da metade das publicações impressas viram suas tiragens despencarem mais de 10% num único ano. Nos EUA, mesmo os gigantes do mercado estão migrando pro digital ou encerrando de vez as edições físicas.

A verdade é que o papel ficou caro, e a atenção das pessoas ficou curta. As revistas estão tentando se adaptar, mas poucas conseguem manter relevância no meio de tanto conteúdo instantâneo, gratuito e produzido em massa. A era das revistas como autoridade cultural tá acabando e talvez o mundo nem tenha se dado conta.

A saída de Anna Wintour e o fim de uma era

A saída da Anna Wintour da Vogue depois de quase quatro décadas não é só uma mudança de cargo: é o fim de uma era em que revistas comandavam o discurso da moda com mão de ferro.

Anna era mais do que uma editora-chefe ela era a própria personificação da autoridade editorial, da moda institucionalizada e do olhar exclusivo (e muitas vezes excludente) sobre o que era tendência.

Imagem Pinterest

Agora, com ela fora do jogo, o que sobra é uma indústria editorial tentando entender seu lugar num mundo onde o feed do TikTok vale mais que uma capa de revista.

Mesmo com toda a força da marca Vogue, o impacto cultural da revista já vinha diminuindo. E isso não é só culpa do digital é reflexo de uma mudança geral na forma como a gente consome conteúdo, moda e informação. O pedestal onde revistas como a Vogue se colocavam já não faz mais sentido pra uma geração que busca representatividade, agilidade e autenticidade.

Sem Wintour no comando, a Vogue vai precisar fazer mais do que trocar de liderança vai ter que trocar de pele. A marca já vinha tentando se adaptar: investiu em conteúdo digital, diversificou pautas e capas, e tentou dialogar com um público mais jovem. Mas será que isso é suficiente?

A real é que, hoje, quem dita moda muitas vezes não é a passarela de Paris, e sim uma creator de 20 e poucos anos fazendo um “get ready with me” no quarto. A Vogue precisa entender que o mundo mudou e rápido. E se não se reinventa de verdade (e não só no discurso), corre o risco de virar peça de museu: bonita, importante, mas esquecida.

Imagem Pinterest

A realidade vira roteiro em “O Diabo veste Prata 2”

Cena do filme “O diabo Veste Prada”

Nessa semana tivemos o anuncio da continuação de “O diabo Veste Prada “ e esse novo filme abordará a vida real nos desafios enfrentados por Miranda diante do declínio da mídia impressa e da ascensão das redes sociais como principal fonte de informação e influência. Enquanto isso, Emily agora em posição de poder comanda um grupo de luxo e controla justamente o orçamento que Miranda precisa para manter sua influência.

A fuga para a autonomia: newsletters, Substack e redes sociais

Diante desse colapso silencioso, muitos jornalistas estão buscando caminhos próprios. Uma das alternativas mais comuns tem sido criar newsletters independentescomo essa aqui. A ideia é construir uma relação direta com o leitor, sem intermediários. Parece moderno, livre, autêntico e muitas vezes é. Mas também é exaustivo.

Cena “Sex And The City”

Você vira jornalista, editor, designer, social media e comercial ao mesmo tempo e ainda tem que atrair e manter um público fiel.

Imagem Pinterest

A autonomia é linda no discurso, mas na prática, é solitária e instável. Viver de newsletter no Brasil é quase utópico. E o mais assustador: quase ninguém tá falando sobre isso.

Conclusão: precisamos apoiar o que importa

O fim da L’Officiel Brasil e a saída da Anna Wintour são sinais claros de que o jornalismo de moda e as revistas como um todo estão num ponto de ruptura.

A forma como a gente consome informação mudou, sim. Mas o valor da informação de qualidade, feita com tempo, profundidade e diversidade, continua mais urgente do que nunca.

Se a gente não apoiar esse tipo de conteúdo agora, ele vai desaparecer de vez. E quando percebermos, será tarde demais.

Porque o mundo que cabe num carrossel do Instagram não dá conta da complexidade da vida real. E nem da beleza de uma boa história bem contada.

Publicado originalmente na Newsletter Capsule Letter – Substack

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Anna Lívia Borges

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