Nos últimos dias, um vídeo publicado por Bia Nardini movimentou o universo da moda e da influência digital. Em tom direto e sem rodeios, Bia trouxe à tona uma questão que há muito incomoda quem realmente estuda, trabalha e respira moda: afinal, o que significa ser referência de moda?
No vídeo, Bia questiona a legitimidade de pessoas que se autointitulam “ícones fashion” ou são tratadas assim pela mídia, mas que não têm nenhum tipo de repertório ou conhecimento além de looks performados muitas vezes criados por stylists. A provocação foi certeira:
“Se posicionar como referência em moda sem estudar cultura, história, comportamento ou mercado, e ainda delegar todas as escolhas de estilo a um profissional externo, é ser referência de quê, exatamente?”
– Bia Nardini
Essa fala acende um debate necessário, principalmente em tempos em que qualquer pessoa com um closet bem montado ou acesso privilegiado a stylists e marcas consegue se projetar como autoridade no assunto.
Deixo abaixo o vídeo da Bia para que vocês possam assistir e tirar as suas conclusões :
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A cultura do look e o esvaziamento da moda
Vivemos em uma era em que a moda foi capturada pela lógica do engajamento digital. O “look do dia”, os vídeos de “get ready with me” e as aparições em semanas de moda se transformaram em métricas de validação social. Mas, como Bia pontuou, ser referência não é sobre a estética isolada ou o impacto de uma foto no Instagram.
Moda é cultura. É história. É comportamento social. É discurso político.
A moda é um reflexo do tempo. Cada tecido, silhueta e cor carrega um fragmento da sociedade que o produziu seus valores, suas contradições, seus desejos. Quando olhamos para a moda apenas como estética, ignoramos seu papel como espelho cultural e instrumento político. Ela traduz movimentos sociais, questiona padrões, desafia estruturas de poder e revela transformações comportamentais. A minissaia dos anos 60, o punk dos 70, o streetwear dos 2000 todos esses momentos foram expressões de rupturas sociais antes de serem tendências. Entender moda é, portanto, compreender o mundo, é decifrar a linguagem silenciosa com que as pessoas comunicam identidade, resistência e pertencimento.
Portanto reduzi-la a um desfile interminável de roupas bonitas não só esvazia o seu real valor, como também cria uma ilusão de autoridade em figuras que não sustentam suas falas quando precisam discutir o tema em profundidade.
O fenômeno dos influencers “ícones fashion”
Para entender melhor essa crítica, basta observar alguns nomes que ganharam notoriedade no cenário digital e passaram a ser vistos como referências de moda, apesar de não terem nenhum repertório na área.
Gkay, por exemplo, é um dos nomes mais comentados quando o assunto é impacto visual. Seus looks chamativos, muitas vezes exagerados e sempre estrategicamente pensados para gerar buzz, ocupam espaço nas principais coberturas de moda e celebridade. Mas a pergunta é: até que ponto isso é moda e até que ponto é performance? Sua imagem é fruto de um trabalho bem executado de styling, mas não existe discurso ou reflexão além do espetáculo.
O mesmo pode ser dito sobre Malu Borges, que rapidamente ganhou a atenção de marcas e veículos especializados por sua estética bem construída. No entanto, seu reconhecimento como “ícone fashion” se sustenta quase exclusivamente em roupas assinadas por stylists renomados. A ausência de repertório crítico, de envolvimento com a cultura ou a história da moda, torna essa imagem frágil e facilmente substituível por qualquer outra influenciadora com bom acesso.
O luxo, aliado ao privilégio social, é um dos grandes facilitadores para que certas figuras alcancem lugares de destaque dentro da moda. Pertencer a uma camada social mais alta abre portas para convites exclusivos, colaborações com grandes marcas e aparições em eventos que muitos profissionais da área passam anos tentando acessar. Esse capital simbólico cria uma ilusão de autoridade: quanto mais próximo do luxo, mais “fashion” a pessoa parece ser mesmo que não haja repertório, conhecimento ou envolvimento genuíno com o tema. O problema é que essa dinâmica reforça uma hierarquia onde a aparência e o status social valem mais do que estudo, pesquisa e trabalho. Claro que não há nenhum problema em usufruir dos privilégios que o seu status te dá, o verdadeiro impasse surge quando alguém se transforma em referência em um assunto sem nenhum embasamento, estudo ou dedicação real, ocupando um espaço que poderia ser melhor representado por quem se empenha em aprender, pesquisar e construir uma trajetória sólida dentro de um mercado que, infelizmente, ainda valoriza mais a performance rasa do que o conteúdo consistente.
Esses exemplos não são isolados. Eles representam uma geração de influencers que confundem performance visual com autoridade cultural. São pessoas que dominam o jogo da visibilidade, mas que, quando o assunto é moda como campo de conhecimento, entregam vazio.
Stylist: aliado ou muleta?
É importante reforçar que a crítica não é contra a profissão de stylist. O trabalho desses profissionais é fundamental para a indústria, e muitas vezes é graças a eles que a imagem de artistas, celebridades e influenciadores ganha consistência.
A questão levantada por Bia Nardini e que eu levanto com vocês, e que merece reflexão, é quando o uso constante do stylist passa a ser uma muleta: uma forma de sustentar uma imagem de “referência fashion” sem que exista, de fato, conhecimento ou autenticidade por trás. É como se o poder criativo e cultural fosse terceirizado, e o influenciador se tornasse apenas uma vitrine ambulante de marcas e tendências.
O que é ser referência de moda de verdade?
Ser referência de moda não é apenas posar com um look perfeito em Paris, Milão ou São Paulo Fashion Week. É compreender os códigos que a moda carrega, é estudar sua história, suas revoluções e suas relações com comportamento e sociedade. É saber dialogar com a cultura de forma crítica e propor reflexões para além do visual.
Uma verdadeira referência não se limita a performar tendências: ela entende, interpreta e questiona. É isso que diferencia quem realmente contribui para o debate sobre moda daqueles que apenas orbitam em torno dela, impulsionados por acessos, privilégios e estratégias de marketing.
Conclusão: moda além da futilidade
A fala de Bia Nardini foi incômoda porque expôs uma verdade que muitos preferem não discutir: a moda que já é conhecida por ser “ irrelevante e fútil” corre o risco de se tornar cada dia mais irrelevante quando reduzida a futilidade e espetáculo vazio. Olhar para o look é fácil. Mas pensar a moda como campo cultural exige estudo, dedicação e autenticidade.
Concordo plenamente com Bia: um look bonito não faz ninguém referência. A moda merece mais do que vitrines ambulantes; merece pessoas capazes de articular sua profundidade e de dar sentido ao que vestem.
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Publicado originalmente na Newsletter Capsule Letter – Substack
