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Anti-Sistema: Quando o protesto vira mercado.

“Buy less, choose well, make it last.”

A frase é de Vivienne Westwood, a estilista que transformou o visual punk em linguagem de moda nos anos 70 e que, de certo modo, é a mãe dessa contradição que até hoje nos faz coçar a cabeça: o que acontece quando um movimento que nasceu para negar o sistema é engolido por ele?

O punk surgiu como ruído, como grito, como recusa. Era a antítese do consumo desenfreado, uma resposta suja e barulhenta à ordem estabelecida. O “faça você mesmo” não era estética, era sobrevivência: jaquetas rasgadas, alfinetes, coturnos militares reciclados. Mas como quase tudo que incomoda, o sistema não demorou a absorver a rebeldia, embrulhar no papel de presente do marketing e vender para quem pudesse pagar.

Estilo Punk anos 70 – Pinterest

Atualmente um colar de pérolas com o icônico orbe de Westwood pode custar mais de R$ 3.000. Um vestido facilmente ultrapassa cinco dígitos. O punk virou luxo. E aí fica a pergunta: se até a anarquia pode ser vendida, o que significa ser contra o sistema dentro do próprio sistema?

Colar de pérolas com o icônico orbe de Vivienne Westwood

Da rua à passarela

Nos anos 70, Vivienne Westwood e Malcolm McLaren não apenas vestiram a cena punk de Londres eles a encenaram. O visual dos Sex Pistols não era acaso, era manifesto. Couro, correntes, zíperes em lugares improváveis, slogans agressivos estampados em camisetas baratas: cada peça era um soco visual contra a moral e os bons costumes.

Vivienne Westwood e Malcolm McLaren parceiro de negócios e seu sócio criativo e catalisador da cena punk londrina nos anos 70.
Os Sex Pistols revolucionaram os anos 70 com sua energia crua e atitude anárquica.

A provocação não era “bonita”, era um ataque. Mas o que era escândalo nas ruas logo virou desejo nas vitrines. As peças que antes gritavam “anarquia” começaram a aparecer nos editoriais de moda. E o que era protesto virou tendência.

É aqui que mora a tensão: quando a contracultura vira produto, ela morre ou ela se multiplica?

Vitrine Vivienne Westwood

Punk é linguagem ou mercadoria?

Se pensarmos no punk apenas como estilo cabelo colorido, jaqueta de couro, spikes, correntes então ele já morreu faz tempo. Porque tudo isso virou estética replicável, da fast fashion às grandes maisons de luxo. Uma camiseta rasgada “de propósito” pode ser encontrada em qualquer shopping. Um coturno, que já foi uniforme de combate de quem não tinha dinheiro, hoje é item fashionista vendido por cifras altas.

Mas se pensarmos no punk como linguagem, como código de rebeldia, então talvez ele não tenha morrido apenas mudou de canal. Hoje, a atitude punk pode estar mais presente em quem ocupa as ruas com cartazes contra governos autoritários, em quem hackeia sistemas, em quem levanta bandeiras contra o colapso climático ou contra as injustiças raciais e de gênero.

Protesto contra racismo

Só que tem um detalhe incômodo: esses mesmos protestos também viram produto. A camiseta com “The Future is Female” ou o moletom com “Black Lives Matter” circulam nas vitrines de fast fashion enquanto os trabalhadores dessas mesmas empresas ganham centavos para costurar roupas. O capitalismo tem essa habilidade assustadora de transformar até a revolta em mercadoria.

Pinterest

Geração Z, a mais punk de todas?

A GenZ cresceu com uma relação ambígua com o consumo. De um lado, hiperconectada, bombardeada por tendências no TikTok e no Instagram, seduzida pelo lançamento da semana. Do outro, consciente, cobrando posicionamento político das marcas, questionando práticas de sustentabilidade, cancelando empresas em massa quando descobre exploração trabalhista.

Modelos encerrando o desfile da Vivienne Westwood segurando a faixa “Climate Revolution”, transformando a passarela em palco de protesto contra a crise climática.

Essa contradição lembra muito o punk: reclamar do sistema enquanto precisa existir dentro dele. Você pode criticar o consumismo, mas continua precisando de roupa para vestir, de celular para se conectar, de internet para protestar. É possível escapar?

Talvez o punk hoje não seja mais a estética de jaquetas e correntes, mas a postura de ironizar e tensionar o próprio sistema em que estamos presos. Ser punk em 2025 pode significar usar o algoritmo contra ele mesmo, hackear tendências, vestir-se de forma consciente, transformar o consumo em ato político ou até mesmo optar por não consumir.

Atacama Fashion Week, foi promovido pela ONG chilena Desierto Vestido.

O luxo punk é um paradoxo ou uma vitória?

Westwood sempre foi um paradoxo em pessoa. Enquanto desfilava coleções caríssimas, levantava cartazes contra o aquecimento global. Enquanto vendia colares disputados pela elite, pregava contra o consumismo. Contradição? Sem dúvida. Mas também potência.

Vivienne Westwood em protesto

E ela não foi a única. Nos últimos anos, marcas como Balenciaga e Diesel têm recuperado a estética do “sujo e feio”, transformando jeans rasgados e camisetas detonadas em itens de luxo vendidos por milhares de euros. A Balenciaga chegou a lançar tênis “destruídos” que custavam quase US$ 2.000 um gesto que gerou debates: era uma crítica irônica ao consumismo ou apenas uma forma de lucrar com a própria crítica?

Design autora

A Diesel, por sua vez, fez desfiles onde modelos atravessavam cenários caóticos, com telões que simulavam o colapso da sociedade digital. Punk atualizado para a era do streaming. E ainda podemos citar o sucesso de colaborações como a que resgataram o símbolo máximo do punk (o coturno) e o colocaram nas vitrines como objeto de desejo da GenZ.

Campanha Diesel

A rebeldia virou marketing. E isso incomoda. Mas talvez o incômodo seja parte do jogo.

Punk digital: do palco ao feed

Se os punks dos anos 70 quebravam guitarras e cuspia em políticos, os punks de hoje talvez estejam mais interessados em quebrar bolhas digitais. O “faça você mesmo” virou “crie seu conteúdo”. O zine xerocado virou thread no Twitter ou um vídeo de 30 segundos no TikTok.

E aqui está o detalhe curioso: os mesmos sistemas que amplificam vozes também lucram com elas. O discurso mais rebelde possível do feminismo radical ao anticapitalismo gera engajamento, cliques e anúncios vendidos. Até a revolução paga imposto.

Então surge a pergunta que talvez seja a mais punk de todas: se até o protesto é monetizável, qual é o limite entre gritar contra o sistema e ser parte da engrenagem?

A incoerência como legado

Talvez o punk nunca tenha sido coerente. E talvez seja justamente essa incoerência que o mantém vivo.

Porque não existe protesto puro em um mundo capitalista. Não existe revolta que não possa ser copiada, vendida, transformada em conteúdo.

Mas existe potência em continuar questionando, mesmo sabendo que estamos dentro do jogo. Existe força em ironizar, em tensionar, em transformar cada ato de consumo em reflexão. Existe punk em rir do próprio paradoxo.

Vivienne Westwood deixou isso claro: a moda é linguagem, é política, é contradição. Não precisa ser coerente para ser relevante. Precisa ser incômoda. Precisa deixar perguntas.

Vivienne com modelos em seu desfile protestando contra crise climatica.

E talvez, no fim das contas, ser punk em 2025 seja isso: não ter respostas fáceis, mas insistir nas perguntas difíceis.

Então, o punk morreu?

Se você procurar por ele na vitrine de uma loja de luxo, talvez sim. Mas se você procurar nas contradições da sua própria vida, na dificuldade de ser contra o sistema dentro do sistema, no incômodo que sente ao perceber que até sua revolta pode virar trend… então não.

Um grande exemplo recente de protesto que envolve a Gen z é o movimento “Protect the Dolls” ganhou força como um protesto de moda que une ativismo e estilo, com foco na proteção dos direitos das mulheres trans. A marca por trás das icônicas camisetas é o designer londrino Conner Ives. Durante o desfile de sua coleção outono/inverno 2025 na London Fashion Week, ele usou uma camiseta branca com a frase “PROTECT THE DOLLS” em letras maiúsculas, inspirada na cultura ballroom dos anos 1980, onde “doll” é um termo carinhoso para mulheres trans.

O punk não morreu. Ele apenas se transformou em espelho. E, toda vez que você se olha nele, a pergunta volta: até que ponto estou sendo rebelde e até que ponto sou só mais um produto?

Leia também na newsletter post relacionado : O Movimento Deinfluencing e o Novo Consumo Consciente

Publicado originalmente na Newsletter Capsule Letter – Substack

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Anna Lívia Borges

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