Este texto usou como base a matéria “Shein Is Struggling to Clean Up Its Dirty Image”, publicada pelo Business of Fashion no dia 18 de junho de 2025. A análise e os dados apresentados aqui têm como ponto de partida essa reportagem, que escancara o impacto ambiental da Shein e os desafios (mal resolvidos) da marca em lidar com sua própria imagem.
O Business of Fashion soltou uma matéria que escancarou (mais uma vez) o que todo mundo já sabia, mas parte da internet ainda finge que não:
A Shein é, de longe, a maior poluidora da indústria da moda.
A empresa emitiu 26,2 milhões de toneladas de CO₂ em 2024. Isso é mais do que o dobro do grupo dono da Zara, a Inditex. E sabe o que é mais assustador? Esse impacto ambiental tá crescendo mais rápido que as próprias vendas.
“Its overall environmental impact is growing faster than its sales.”
– BoF
Ou seja, mesmo se vendesse menos, continuaria destruindo mais.
Mas vamos ser claros desde o início: criticar a Shein não é atacar quem compra lá. Criticar a Shein é criticar um modelo de negócio baseado na exploração de pessoas e recursos naturais. É apontar o dedo pra uma engrenagem que transforma vulnerabilidade em lucro.
Se a sua resposta automática pra qualquer crítica à marca é se perguntar porque não falamos de outras , já passou da hora de atualizar esse argumento. A Shein é maior, mais rápida, mais suja, literalmente. Só nos primeiros três meses do ano, sim, você leu certo: T-R-Ê-S M-E-S-E-S ,ela lançou mais de 317 mil produtos diferentes. Não é exagero: são centenas de milhares de peças novas jogadas no site num ritmo que nenhuma outra fast fashion consegue acompanhar.
E isso só é possível às custas de algo ou melhor, de alguéns.
Trabalhadores exaustos, mal pagos, muitas vezes sem qualquer direito trabalhista. Produção acelerada em ambientes onde denúncias de condições análogas à escravidão não são exceção, são a norma. Tudo isso alimentado por aviões despejando CO₂ no céu como se não houvesse amanhã (literalmente).
“Production and shipping (mostly by gas-guzzling aircraft) account for the bulk of the fashion giant’s emissions.”
– BoF
E aí vem aquela conversa fiada do “mas a Shein é democrática, é acessível pra todo mundo”. Sinto muito, mas não é democrática uma marca que só é “acessível” porque explora pessoas invisíveis em outro lugar do mundo. E não é acessível quando esse modelo de consumo compulsivo alimenta um ciclo de vício, não de necessidade.
Vamos deixar uma coisa bem clara:
- Quem compra por necessidade não sustenta a indústria.
- Quem consome por vício, sim.
A crítica aqui não é à blusinha da Shein custar R$20. Porque, o preço alto não vai resolver o elitismo da moda. O problema não é o preço da peça, é o sistema que torna esse preço possível.
“That gives Shein the dubious honour of fashion’s worst polluter for the second year in a row.”
– BoF
Shein já gastou milhões tentando melhorar sua imagem com promessas de sustentabilidade, mas os próprios dados dela mostram o fracasso: conseguiu cortar um milhão de toneladas de CO₂… mas no mesmo período, emitiu mais cinco milhões. Isso é tipo fazer dieta e ganhar peso ao mesmo tempo.
“Its decarbonisation efforts succeeded in squeezing out nearly one million tonnes of CO2 equivalent, but its overall footprint still grew by nearly five million tonnes.”
– BoF
Então, não adianta vir com papo de “pelo menos ela está tentando”. Tentar não é o suficiente quando você está destruindo o planeta em alta velocidade.
E se esse tipo de crítica te incomoda, vale se perguntar: por quê? Se você sente que isso é um ataque pessoal, talvez o problema não esteja na crítica. Porque ninguém aqui tá dizendo que quem compra na Shein é vilão. O vilão é quem construiu um modelo de negócio multibilionário em cima da miséria alheia, e ainda se vende como “marca accessível a todos”
Aliás, vamos parar de romantizar o “acessível” quando esse preço só é possível graças à exploração de alguém do outro lado do mundo. Não é justo. Não é sustentável. Não é progresso.
Se o seu argumento é que tem gente que só pode comprar na Shein, então que a gente lute por condições mais dignas e acessibilidade real, e não por manter o status de exploração.
Porque quando a gente defende esse modelo de produção em nome da acessibilidade, a gente não tá defendendo o consumidor. A gente tá defendendo a empresa a indústria e o modelo de negocio que ela usa.
No fim das contas, a mudança precisa vir da indústria. É ela que precisa se transformar. Não é a crítica que tem que parar é o sistema que tem que ruir.
Publicado originalmente na Newsletter Capsule Letter – Substack
