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Shein, acessível pra quem?

✍️ Este texto usou como base a matéria “Shein Is Struggling to Clean Up Its Dirty Image”, publicada pelo Business of Fashion no dia 18 de junho de 2025. A análise e os dados apresentados aqui têm como ponto de partida essa reportagem, que escancara o impacto ambiental da Shein e os desafios (mal resolvidos) da marca em lidar com sua própria imagem.

👉 Matéria Completa Business of Fashion

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Business of Fashion soltou uma matéria que escancarou (mais uma vez) o que todo mundo já sabia, mas parte da internet ainda finge que não:

A Shein é, de longe, a maior poluidora da indústria da moda.

A empresa emitiu 26,2 milhões de toneladas de CO₂ em 2024. Isso é mais do que o dobro do grupo dono da Zara, a Inditex. E sabe o que é mais assustador? Esse impacto ambiental tá crescendo mais rápido que as próprias vendas.

Gráfico das principais empresas do ramo Fast Fashion e suas emissões de Co2 em 2024. A Shein se mostra na frente de todas as outras marcas do mesmo ramo.
Gráfico das principais empresas do ramo Fast Fashion e suas emissões de Co2 em 2024. A Shein se mostra na frente de todas as outras marcas do mesmo ramo.

“Its overall environmental impact is growing faster than its sales.”
– BoF

Ou seja, mesmo se vendesse menos, continuaria destruindo mais.

Mas vamos ser claros desde o início: criticar a Shein não é atacar quem compra lá. Criticar a Shein é criticar um modelo de negócio baseado na exploração de pessoas e recursos naturais. É apontar o dedo pra uma engrenagem que transforma vulnerabilidade em lucro.

Se a sua resposta automática pra qualquer crítica à marca é se perguntar porque não falamos de outras , já passou da hora de atualizar esse argumento. A Shein é maior, mais rápida, mais suja, literalmente. Só nos primeiros três meses do ano, sim, você leu certo: T-R-Ê-S M-E-S-E-S ,ela lançou mais de 317 mil produtos diferentes. Não é exagero: são centenas de milhares de peças novas jogadas no site num ritmo que nenhuma outra fast fashion consegue acompanhar.

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E isso só é possível às custas de algo ou melhor, de alguéns.

Trabalhadores exaustos, mal pagos, muitas vezes sem qualquer direito trabalhista. Produção acelerada em ambientes onde denúncias de condições análogas à escravidão não são exceção, são a norma. Tudo isso alimentado por aviões despejando CO₂ no céu como se não houvesse amanhã (literalmente).

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“Production and shipping (mostly by gas-guzzling aircraft) account for the bulk of the fashion giant’s emissions.”
– BoF

E aí vem aquela conversa fiada do “mas a Shein é democrática, é acessível pra todo mundo”. Sinto muito, mas não é democrática uma marca que só é “acessível” porque explora pessoas invisíveis em outro lugar do mundo. E não é acessível quando esse modelo de consumo compulsivo alimenta um ciclo de vício, não de necessidade.

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Vamos deixar uma coisa bem clara:

  • Quem compra por necessidade não sustenta a indústria.
  • Quem consome por vício, sim.

A crítica aqui não é à blusinha da Shein custar R$20. Porque, o preço alto não vai resolver o elitismo da moda. O problema não é o preço da peça, é o sistema que torna esse preço possível.

“That gives Shein the dubious honour of fashion’s worst polluter for the second year in a row.”
– BoF

Shein já gastou milhões tentando melhorar sua imagem com promessas de sustentabilidade, mas os próprios dados dela mostram o fracasso: conseguiu cortar um milhão de toneladas de CO₂… mas no mesmo período, emitiu mais cinco milhões. Isso é tipo fazer dieta e ganhar peso ao mesmo tempo.

Gráfico demonstra a diminuição X aumento de produção de Co2 pela empresa.
Gráfico demonstra a diminuição X aumento de produção de Co2 pela empresa.

“Its decarbonisation efforts succeeded in squeezing out nearly one million tonnes of CO2 equivalent, but its overall footprint still grew by nearly five million tonnes.”
– BoF

Gráfico que demostra de onde vem as principais emissões de Co2 da Shein.
Gráfico que demostra de onde vem as principais emissões de Co2 da Shein.

Então, não adianta vir com papo de “pelo menos ela está tentando”. Tentar não é o suficiente quando você está destruindo o planeta em alta velocidade.

E se esse tipo de crítica te incomoda, vale se perguntar: por quê? Se você sente que isso é um ataque pessoal, talvez o problema não esteja na crítica. Porque ninguém aqui tá dizendo que quem compra na Shein é vilão. O vilão é quem construiu um modelo de negócio multibilionário em cima da miséria alheia, e ainda se vende como “marca accessível a todos”

Aliás, vamos parar de romantizar o “acessível” quando esse preço só é possível graças à exploração de alguém do outro lado do mundo. Não é justo. Não é sustentável. Não é progresso.

Se o seu argumento é que tem gente que só pode comprar na Shein, então que a gente lute por condições mais dignas e acessibilidade real, e não por manter o status de exploração.

Porque quando a gente defende esse modelo de produção em nome da acessibilidade, a gente não tá defendendo o consumidor. A gente tá defendendo a empresa a indústria e o modelo de negocio que ela usa.

No fim das contas, a mudança precisa vir da indústria. É ela que precisa se transformar. Não é a crítica que tem que parar é o sistema que tem que ruir.

Publicado originalmente na Newsletter Capsule Letter – Substack

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Anna Lívia Borges

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