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Sobre o mito da energia feminina

Nota da autora: Este texto é um lembrete para mim, para você e para todas nós de que ser mulher nunca foi sobre caber.
É sobre ocupar, questionar, desafiar e criar.
A energia feminina não mora no silêncio nem no sorriso contido, mas na força que você sente quando se escolhe.
Que a sua feminilidade seja, pensante e indomável.
E que você nunca precise se encolher pra continuar sendo doce.

O termo aparece em vídeos de meninas com fitas de cetim no cabelo, vozes mansas e frases prontas sobre “ser recatada, calma e grata pela vida”.
Mas a pergunta é: isso é realmente sobre feminilidade ou é só mais uma versão moderninha do bom e velho machismo embalado em estética Pinterest?

Quando você ouve “energia feminina”, o que vem à cabeça?

Provavelmente algo como velas acesas, vestidos rodados, corpos de pilates, skincare às 6h da manhã e o mantra “I’m just a girl” tocando ao fundo.
É a mulher “leve”, “delicada”, “angelical”.
A mulher que fala baixo, sorri sempre e jamais discute política num jantar de família.
A mulher que o patriarcado adoraria que todas nós fôssemos.

Mas… isso é ser feminina?
Ou é apenas performar o que os homens disseram que era o feminino?

Nos últimos tempos, o termo “energia feminina” foi sequestrado e reembalado como um produto vendável coaching de soft girlcursos sobre o feminino feridomentorias para atrair o masculino ideal.
Uma estética, não uma essência.
E, ironicamente, uma estética pensada para agradar… os homens.

Porque repare: toda essa teoria de que “ser feminina é ser fofa, submissa, tranquila, quase angelical” não nasce de dentro das mulheres.
Nasce da necessidade masculina de controle. É a tentativa de transformar o feminino em uma marca registrada: um conjunto de gestos, filtros, roupas e palavras cuidadosamente desenhadas para não assustar ninguém.(Principalmente, para não assustar os homens).

É uma energia moldada não vivida.
É a tentativa de transformar o feminino em um comportamento domesticado.
De reduzir o ser mulher a uma aparência.

Mas a verdadeira energia feminina não mora na superfície da pele, e sim no campo mental.
Ela é força intuitiva, é clareza emocional, é sabedoria e criação.
Não é sobre laços e saias rodadas é sobre mente afiada, presença e instinto.
A estética pode até ser uma forma de expressão, mas quando ela se torna o critério de feminilidade, a alma some.

E é aqui que entra algo que o Ocidente esqueceu: o conceito ancestral do Yin e Yang.
Na filosofia chinesa, Yin representa a energia do feminino a intuição, a profundidade, o invisível, o sentir.
Yang representa o masculino o agir, o fazer, o racional.
Um não é superior ao outro. Ambos existem em tudo e em todos.
O segredo nunca foi ser “mais Yin” ou “mais Yang”, e sim encontrar o equilíbrio entre os dois polos.
Uma mulher pode ser suave e firme, racional e emocional, sensual e intelectual.
E um homem também deveria cultivar o Yin empatia, escuta, sensibilidade sem ser visto como “menos homem”.

Só que nas redes, o discurso virou outra coisa: um campeonato de quem performa melhor a “energia feminina ideal”.
Uma corrida estética disfarçada de espiritualidade.
E o mais bizarro: um movimento onde mulheres começaram a se sentir superiores a outras por serem quietas, gentis e recatadas.
Como se falar fosse feio, discutir fosse vulgar e pensar fosse um ato masculino.
Isso não é feminilidade isso é condicionamento patriarcal de alta performance.

Recentemente, esse debate reacendeu nas redes através da empresaria Francine Elke.
Antes vista como uma mulher autêntica, criativa e intensa, muitos seguidores notaram uma mudança comportamental perceptível após o início do seu relacionamento.
Ela passou a usar roupas mais curtas, mas com estética “fofa” babados, saias plissadas, laços no cabelo. Adotou uma voz infantilizada em vídeos com o marido e começou a performar uma sexualidade quase caricata: uma mistura de “menininha” e “objeto de desejo”.
E embora não exista absolutamente nada de errado em se vestir ou se expressar de forma sexy, o problema aparece quando isso deixa de ser uma escolha livre e se torna uma adaptação inconsciente ao olhar masculino.
A fronteira entre o autêntico e o imposto é tênue e o patriarcado sabe dançar muito bem sobre ela.

E isso diz muito sobre o que o patriarcado ainda exige de nós, mesmo em 2025:
que sejamos inspiradoras, mas nunca ameaçadoras.
Que sejamos fortes, mas só o suficiente pra não incomodar.

A escritora Clarissa Pinkola Estés, em “Mulheres que Correm com os Lobos”, diz:

“Ser nós mesmas provoca confusão nos outros e medo. Mas ser nós mesmas também ilumina o caminho de quem vem depois.”

Mas a internet conseguiu transformar a mulher selvagem em um filtro cor-de-rosa de aesthetic wellness.
Onde ser feminina é “não discutir”, “não competir”, “não ser bruta”.
Uma suavidade tão fabricada que já perdeu qualquer traço de alma.

Tem gente que chama esse movimento de infantilização das mulheres.
E não é exagero.
Mulheres adultas encenando a doçura de uma criança mas sem a liberdade e curiosidade natural de uma.
Porque, diferente das crianças reais, essa “soft girl” não pode questionar.
Ela tem que sorrir, agradecer e manter a voz doce, mesmo quando o mundo está pegando fogo.
Enquanto isso, os debates sobre política, economia e poder continuam sendo dominados por homens.
E a gente continua ouvindo: “essas coisas não combinam com a sua energia”.

Mas e se a verdadeira energia feminina for justamente o oposto disso?
E se for sobre ter opinião, se impor, discutir, liderar e ainda assim ser linda, sexy e feminina?
E se ser feminina for justamente não precisar escolher entre a força e a doçura?

E talvez esse seja o ponto central: a verdadeira energia feminina nunca foi suave, domesticada ou silenciosa.
Ela sempre foi instintiva, selvagem e criadora.
Ela não cabe em moldes; ela rompe estruturas.

Será que ser mulher é sinônimo de leveza ou é um ato político pesado pra cacete desde o nascimento?

Essa conversa me leva a pensar em Maria Antonieta, aquela que a história transformou em vilã.
A rainha da França foi guilhotinada porque acreditavam que sua futilidade — os vestidos, os sapatos, as festas — eram a causa da derrocada do reino.
Mas quem foi que a colocou nesse lugar de símbolo do supérfluo?
A mesma sociedade que lhe negou qualquer poder real de decisão.
Quando uma mulher ocupa o papel que o patriarcado desenha pra ela, o da beleza, do adorno, do silêncio , ela é descartável.
Quando tenta sair dele, ela é perigosa.

As bruxas, queimadas e perseguidas, são o exemplo mais brutal disso.
Eram mulheres curiosas, estudiosas, inventivas. E por ousarem pensar, foram silenciadas. Não tinham “energia feminina” o suficiente ( no sentido que o patriarcado queria). Tinham fogo, sabedoria e ousadia e isso nunca foi tolerado.

E nesses dois casos e em muitos outros que eu poderia dar de exemplo quem nos impôs para sermos femininas foram os homens.

Então vamos ser sinceras: essa energia “feminina” de ser dócil, fofa, delicada e eternamente disposta a agradar, não tem nada de feminina.
Ela é o reflexo direto do olhar masculino sobre nós.
É a tentativa de transformar a mulher em um produto estético, domesticável e previsível.
E o mais perigoso é quando nós mesmas começamos a acreditar nisso e passamos a reproduzir a performance da menina boazinha, mesmo sabendo que isso é só mais uma prisão disfarçada de autocuidado.

Clarissa Estés também escreveu:

“A mulher que recupera sua natureza instintiva é uma força poderosa. Ela sabe o que precisa, sabe o que quer e sabe o que deve proteger.”

Essa é a verdadeira energia feminina: a que pensa, fala, enfrenta e cria.
A que entende de política, de arte, de cultura, de economia.
A que sabe dizer “não” com firmeza e “sim” com consciência.
A que não se cala quando um homem faz um comentário idiota num jantar.
A que ocupa mesas, debates, espaços e não pede desculpa por existir.

Energia feminina não é só rosa bebê, é também vermelho sangue.
É a cor das revoluções, das guerras que travamos dentro e fora de nós.
É o olhar firme de quem sabe que o respeito nunca é dado, é conquistado.
É entender que a beleza pode ser uma arma, mas que a inteligência é o verdadeiro poder.

Eu não quero uma energia feminina de laço na cabeça e cegueira estética.
Quero uma energia feminina que faça os homens se calarem pra ouvir.
Que entre em uma sala e mude o ar.
Que não precise se diminuir pra ser aceita.
Que seja política, criativa, indomável.
Quero ser feminina como um pesadelo o tipo que acorda o mundo.

Ser mulher é viver em guerra e ainda assim dançar no campo de batalha.
É ser julgada por existir com voz, mas mesmo assim continuar falando.
É ser chamada de arrogante por saber do que está falando e de fraca quando tenta descansar.

Então, se ser feminina é ser tudo o que o patriarcado teme, eu quero ser o próprio medo.

“Dentro de cada mulher vive uma criatura selvagem e natural, uma força poderosa, boa e instintiva, cheia de criatividade e sabedoria.”
– Clarissa Pinkola Estés — Mulheres que Correm com os Lobos

E é essa força que o mundo tenta domesticar agora, com estética de TikTok e cheiro de matcha.
Mas que nunca, nunca, vai caber em um molde rosa.

Publicado originalmente na Newsletter Capsule Letter – Substack

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Anna Lívia Borges

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