Sim, o chinelo que você usa pra ir na padaria ou descer o lixo agora é considerado o “must-have” global. E, embora isso possa soar como mais um meme da moda, o movimento diz muito sobre como o eixo da cultura global está girando finalmente em direção ao Sul.
Desde 1962, a Havaianas é sinônimo de simplicidade tropical. Um ícone de sol, mar, churrasco e “vida leve”, que atravessa gerações e classes sociais. Mas em 2025, o chinelo virou notícia no Copenhagen Fashion Week, quando a marca lançou uma versão impressa em 3D em parceria com a Zellerfeld, desfilando ao lado de grifes de luxo.

De repente, o que era o uniforme não oficial das praias brasileiras virou item de desejo nas ruas frias da Dinamarca. Um paradoxo delicioso e, ao mesmo tempo, provocador: por que algo precisa ser legitimado lá fora pra ser valorizado aqui?

Quando o “cool” precisa de passaporte
Esse é o ponto. O que as Havaianas estão vivendo agora é o que tantas expressões culturais do Sul Global sempre viveram: o ciclo da validação estrangeira.
Primeiro, nasce algo autêntico, local, orgânico. Depois, o mundo “descobre”, reinterpreta e vende como tendência. Só então, o país de origem começa a ver valor naquilo que criou.
A moda brasileira é exemplo clássico. Rica, criativa, múltipla mas muitas vezes invisibilizada. Enquanto jornalistas e influenciadoras atravessam o oceano pra assistir aos desfiles de Paris ou Milão, o São Paulo Fashion Week continua sendo subestimado, mesmo sendo o maior evento de moda da América Latina.
É como se a gente só acreditasse que algo é “moda de verdade” quando vem carimbado por um editor europeu. E isso diz muito sobre a hierarquia cultural que ainda estrutura a indústria.
Segundo a WGSN, uma das consultorias de tendências mais influentes do mundo, as tendências estão se tornando mais descentralizadas e globais, deixando de ser ditadas apenas por um único eixo de poder (Europa e América do Norte). Essa descentralização abre espaço para novos centros criativos e a América Latina está entre eles.

Mas, pra que essa descentralização seja real, é preciso mais do que aplausos e colaborações pontuais. É preciso reconhecimento, respeito e redistribuição de protagonismo.
Latino Core: quando o hype vira ruído
É aqui que entra o tal do “Latino Core”, termo que tem tomado conta do TikTok e das revistas de moda. A estética latina virou “tendência”: cores vibrantes, tecidos fluidos, referências tropicais, sensualidade natural e uma energia festiva que, de repente, parece “exótica” e “fresh” pros olhos do Norte.
Mas sejamos sinceros: o Latino Core não é tendência. É identidade.

Por trás do filtro solar e das estampas tropicais existe uma história complexa de colonização, desigualdade e resistência cultural. Existe a avó costureira, o som da rua, o improviso que vira estilo. Existe um modo de viver que nunca foi sobre luxo mas sobre autenticidade.
Quando a moda transforma isso em moodboard de Pinterest, o que ela faz, basicamente, é embelezar o sintoma sem entender a origem.
A ironia é que o mesmo chinelo que muitos brasileiros ainda acham “simples demais” pra usar fora de casa virou o “novo luxo minimalista” em Copenhague. E o mesmo Brasil que a elite global quer imitar nas cores, na música e na vibe “sol e alegria”, é o que continua sendo visto como periferia do mundo quando o assunto é criatividade.

Do funk às passarelas: o som que incomoda e conquista
Mas a resistência está fazendo barulho — literalmente. O funk brasileiro, por exemplo, nasceu nas favelas, foi criminalizado por décadas e agora embala desfiles de marcas internacionais.
O som que antes era visto como “caótico” hoje é remixado nas passarelas e ouvido em playlists de fashion shows da Prada, Diesel e Mugler.
Isso não aconteceu por acaso: é resultado de um movimento de visibilidade que vem da base, da periferia, das vozes que sempre foram silenciadas.
E o mesmo vale pra música latina em geral. Bad Bunny, Karol G, Rosalía, Peso Pluma, todos transformaram suas línguas e raízes em fenômenos globais.
Mas talvez ninguém represente essa virada cultural tão bem quanto Anitta.
Da Furacão 2000 aos palcos do Coachella, ela não apenas exportou o funk brasileiro, exportou uma atitude. A de dizer: “isso é nosso, e a gente não precisa traduzir pra ser ouvido.”
Anitta não tenta ser uma estrela pop americana ela é uma popstar brasileira com alcance mundial. E é isso que o mundo finalmente começa a entender: o global não precisa mais vir de um único ponto do mapa

Nem toda inspiração é apropriação — mas a linha é tênue
É claro que nem toda referência é apropriação. A troca cultural é inevitável e até necessária o problema é quando ela vem sem contexto, sem crédito e sem consciência.
Usar o funk, a estética tropical ou as cores latinas pra “parecer cool” sem entender de onde vem, é o mesmo que usar a bandeira de um país como acessório: bonito por fora, vazio por dentro.
Existem marcas que buscam fazer diferente que colaboram com artistas locais, valorizam o design artesanal e dão espaço a criadores latino-americanos de verdade.
Mas existem também as que pegam nossas referências, limpam o “excesso”, embranquecem o discurso e vendem como algo “novo”. É o tropical chic sem calor, o funk sem favela, o samba sem suor.
O problema não é o uso, é o apagamento.
Quando a cultura é transformada em produto e vendida de volta pra quem a criou, a apropriação deixa de ser inspiração e vira exploração.

A estética é linda, mas a história é densa
A ascensão do Latino Core e o sucesso das Havaianas no ranking da Lyst representam mais do que uma tendência passageira: são sintomas de uma reconfiguração global da cultura.
Mas o que está em jogo é o equilíbrio entre visibilidade e distorção.
A estética pode ser vibrante, divertida e inspiradora , mas ela vem carregada de séculos de luta por reconhecimento, de camadas de resistência e de criatividade forjada na falta de recursos.
Enquanto o mundo se veste de “latino” e consome nossa música, nossas cores e nossos símbolos, é preciso lembrar:
Não somos uma tendência, somos um continente inteiro de histórias, vozes e vivências.
Conclusão: o Sul não precisa de tradução
Ver as Havaianas brilharem em Copenhague é um prazer e, ao mesmo tempo, um lembrete ácido.
Sim, é bonito ver o mundo usar o que é nosso. Mas também é incômodo perceber que a gente ainda precisa que o mundo use pra valorizar o que sempre esteve aqui.
O “Latino Core” não é sobre uma paleta de cores nem sobre looks de Pinterest é sobre resgate cultural, identidade e pertencimento.
E enquanto alguns ainda enxergam o hype latino como uma fantasia estética, a realidade é que estamos falando de povos que transformam adversidade em arte.
Se apropriar de uma cultura pra se sentir pertencido é roubo simbólico.
E o que nós temos — no Brasil, na Colômbia, no México, na Argentina, em todo o Sul Global — é cultura demais pra caber em uma tendência.
Não somos o moodboard do verão europeu.
Somos o que vem depois do hype a raiz que nunca saiu de moda.

Leia também na newsletter post relacionado : Moda Brasileira: Autenticidade x Reconhecimento
Publicado originalmente na Newsletter Capsule Letter – Substack
