Alerta de Gatilho:
Este texto aborda temas sensíveis relacionados à violência doméstica, feminicídio, estupro, violência sexual, misoginia, controle psicológico, abuso emocional, violência simbólica, cultura do estupro e discursos que naturalizam a agressão contra mulheres. O conteúdo pode ser perturbador para pessoas que vivenciam ou já vivenciaram situações de violência de gênero.
Se você sofre ou já sofreu qualquer tipo de violência, ou se conhece alguém que esteja passando por isso, procure ajuda. No Brasil, o Ligue 180 funciona 24 horas por dia, é gratuito e confidencial, oferecendo orientação e encaminhamento para mulheres em situação de violência. Em situações de emergência, ligue 190.
Você não está sozinha. Há apoio, escuta e caminhos possíveis.
Se você convive, apoia, silencia ou relativiza comportamentos violentos, sejam eles físicos, psicológicos, simbólicos ou sexuais, é importante saber: a violência contra a mulher é crime. Ser conivente, normalizar ou proteger agressores não é neutralidade, é participação em uma estrutura que causa danos reais e pode ter consequências legais. Escolher se posicionar também é uma responsabilidade.
Cuide de si. Leia no seu tempo. E, se precisar, procure ajuda.

Durante muito tempo disseram que a violência contra mulheres era um problema individual, pontual, resultado de más escolhas ou de relações malsucedidas. Disseram que bastava sair de um relacionamento ruim, denunciar, procurar ajuda. Disseram que exagerávamos, que víamos perigo onde havia apenas conflito, que confundíamos cuidado com controle por trauma ou fragilidade emocional.
O que nunca disseram — porque nunca interessou dizer — é que a violência contra mulheres é um projeto cultural. Um projeto que atravessa gerações, linguagens, instituições e agora encontra nas redes sociais um terreno fértil para se reinventar, se espalhar e se normalizar com uma velocidade assustadora.
Não existe feminicídio que comece no dia do assassinato. Antes dele, existe uma sucessão de discursos, permissões simbólicas, silêncios, cúmplices e ensinamentos sociais que constroem a ideia de que mulheres podem ser controladas, corrigidas, e punidas.
No dia 7 de dezembro de 2025 , movimentos como o Levante Mulheres Vivas e coletivos feministas organizaram protestos em pelo menos 20 estados e no Distrito Federal, reunindo milhares de pessoas contra a escalada dos feminicídios e todas as formas de violência de gênero. Faixas e gritos ocuparam avenidas e praças, com destaque para a Avenida Paulista, em São Paulo, além de atos registrados no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Florianópolis, João Pessoa e diversas outras cidades. Impulsionadas por números alarmantes, incluindo mais de mil feminicídios registrados apenas em 2025 e casos recentes que chocaram o país, organizações civis e coletivos denunciaram a naturalização da violência e cobraram respostas concretas do Estado para romper o ciclo de morte, medo e impunidade. Os atos não reuniram apenas militantes históricas, mas também famílias inteiras, artistas, sindicatos, parlamentares e pessoas comuns que compreenderam que a violência contra mulheres não é uma pauta setorial, e sim um problema estrutural. Nas ruas, as reivindicações iam da implementação imediata de medidas protetivas mais eficazes ao fortalecimento de canais de denúncia como o Ligue 180, passando pela exigência de políticas públicas consistentes de prevenção e responsabilização dos agressores. A mobilização se espalhou por capitais e cidades médias em todas as regiões do país, evidenciando a abrangência nacional da indignação e deixando claro que o debate sobre feminicídio e violência de gênero atravessa gerações, territórios e experiências de vida e já não aceita mais ser empurrado para o silêncio.

No Brasil, essa estrutura mata com regularidade assustadora. Em 2024, 1.459 mulheres foram assassinadas por serem mulheres, o maior número já registrado desde a tipificação do feminicídio. Isso significa que, em média, quatro mulheres morreram por dia, todos os dias, ao longo de um ano inteiro. Não se trata de uma crise pontual, mas de uma rotina de mortes normalizadas. Existe uma pedagogia da violência que começa cedo, muito antes de qualquer crime ser cometido. Ela se manifesta quando meninas aprendem a se comportar para não provocar, enquanto meninos aprendem que frustração é algo que o mundo deve resolver por eles. Ela se reforça quando a liberdade feminina é tratada como ameaça e a autonomia como desvio. E hoje, essa pedagogia ganhou novos formatos, novas embalagens e novos porta-vozes.
Nas redes sociais, em fóruns, comunidades, podcasts e comentários, a misoginia se apresenta como análise racional, como crítica social, como “verdades inconvenientes”. Discursos sobre papéis tradicionais de homens e mulheres circulam com uma estética moderna, linguagem jovem e tom provocador, mas carregam a mesma lógica antiga: mulheres existem para ocupar determinados lugares e qualquer tentativa de sair deles precisa ser contida. Não se trata apenas de opinião. Trata-se da construção ativa de um imaginário coletivo que delimita onde mulheres podem estar, como devem amar, até onde podem ir e o que acontece quando desobedecem.
Enquanto essas narrativas circulam livremente nas redes, os números fora da tela acompanham o mesmo ritmo. De um ano para o outro, entre 2023 e 2024, os casos de feminicídio cresceram 0,7%, mostrando que não há desaceleração real da violência, apenas novas formas de justificá-la. A misoginia se reinventa, e os crimes seguem acontecendo.
Esses espaços digitais não são neutros. Eles funcionam como verdadeiras escolas informais de gênero, ensinando comportamentos, justificando violências e criando comunidades inteiras baseadas no ressentimento masculino. Os chamados red pills não surgem como um fenômeno isolado ou excêntrico da internet. Eles são sintoma de um medo estrutural: o medo de perder privilégios que nunca foram questionados. Por trás do discurso de que mulheres estão “confusas”, “modernas demais” ou “desnaturadas”, existe o pânico diante da possibilidade de não ser mais o centro, de não ter mais poder automático sobre o corpo e as decisões de outra pessoa.
O problema desses discursos não é apenas o que dizem, mas o que autorizam. Quando homens são ensinados que mulheres precisam ser lideradas, corrigidas ou protegidas de si mesmas, o controle passa a ser visto como responsabilidade masculina. Quando relacionamentos são apresentados como espaços de hierarquia e não de troca, o ciúme vira prova de amor, a vigilância vira cuidado e o isolamento vira proteção. É assim que muitas mulheres se veem presas em relações que não reconhecem como violentas até que a violência já esteja completamente instalada.
Essa lógica cria o cenário perfeito para comportamentos agressivos. Primeiro vêm as regras sobre roupa, amizades, horários. Depois, a desqualificação emocional, o questionamento constante, a manipulação. Em seguida, o medo. E quando a mulher tenta sair, quando rompe o script, quando decide existir fora daquele controle, a violência deixa de ser simbólica e se torna física. O feminicídio não é um surto. Ele é a consequência extrema de um sistema que ensinou aquele homem que ele tinha direito sobre aquela vida.
A geração Z cresceu conectada. Aprendeu sobre o mundo por telas, vídeos curtos, comentários e discursos fragmentados que, repetidos milhares de vezes, constroem verdades emocionais. É nesse ambiente que a misoginia contemporânea se sofisticou. Ela não precisa mais gritar. Muitas vezes, ela explica. Analisa. Ensina. E é justamente por isso que se torna tão perigosa. Enquanto meninas aprendem desde cedo a identificar riscos, moderar comportamentos e transformar intuição em mecanismo de sobrevivência, meninos são expostos a discursos que explicam sua frustração como consequência direta da liberdade feminina.
O impacto subjetivo disso na vida das mulheres é profundo. Muitas crescem acreditando que relacionamentos exigem vigilância constante sobre si mesmas. Que precisam administrar o ego masculino, evitar conflitos, medir palavras. Que dizer não é arriscado. Que terminar pode ser perigoso. Que a raiva masculina é algo a ser contornado, não confrontado. Essa carga emocional não aparece em estatísticas, mas aparece nos corpos: na ansiedade crônica, no medo constante, na dificuldade de estabelecer limites, no esgotamento psicológico.
Vivemos uma contradição permanente. Somos incentivadas a sermos livres, independentes, donas de nós, mas somos punidas quando exercemos essa liberdade. Somos chamadas de frias, arrogantes, difíceis, ameaçadoras. A misoginia contemporânea não odeia apenas mulheres submissas ou rebeldes. Ela odeia mulheres autônomas. Odeia aquelas que não pedem permissão.
É nesse contexto que o feminicídio precisa ser entendido não como um evento isolado, mas como um recado coletivo. Um aviso. Um mecanismo de controle social que diz às outras mulheres até onde podem ir. Cada mulher assassinada por um companheiro carrega uma mensagem implícita: sair tem custo, desobedecer tem consequência. Essa pedagogia do medo funciona porque é reforçada diariamente por narrativas culturais que naturalizam o direito masculino ao controle.
Enquanto isso, a cultura do estupro segue operando como pano de fundo silencioso de todas essas relações. Vivemos em uma sociedade que erotiza o corpo feminino desde a infância e, ao mesmo tempo, responsabiliza mulheres pela violência que sofrem. Uma sociedade que questiona o comportamento da vítima antes de questionar a ação do agressor. Que relativiza consentimento, normaliza coerção e transforma abuso em mal-entendido. Não é coincidência que o estupro seja um dos crimes mais subnotificados do país. O silêncio não é escolha individual, é resultado de um sistema que pune quem fala.
Em 2024, o Brasil registrou 71.892 estupros, o equivalente a 196 mulheres violentadas por dia. Em 2025, mesmo com dados ainda parciais, a média segue próxima disso, com cerca de 187 casos diários apenas no primeiro semestre. Esses números não representam um pico isolado, mas a continuidade de uma cultura que ensina mulheres a se calarem e homens a atravessarem limites sem consequências.
A masculinidade construída nesses ambientes digitais é frágil, mas extremamente violenta. Frágil porque depende constantemente da validação externa, do controle do outro, da imposição de força para existir. Violenta porque, ao ser questionada, reage com agressividade. Basta observar a diferença entre os medos, como diria a autora Margaret Atwood:
“Homens têm medo de serem ridicularizados, mulheres têm medo de serem mortas.”
Essa assimetria diz tudo sobre quem está em risco real.
O patriarcado, como sempre, não opera sozinho. Ele encontra aliados poderosos, inclusive dentro da religião. Não na espiritualidade, mas na interpretação seletiva e conveniente de dogmas que reforçam submissão feminina e absolvem desvios masculinos. Às mulheres, exige-se pureza, recato, perdão, silêncio. Aos homens, oferece-se compreensão, redenção, nova chance. Quando uma mulher trai, sua moral é questionada, sua vida pode ser colocada em risco. Quando um homem trai, o erro é tratado como fraqueza humana, algo a ser perdoado. ( Não como defesa da infidelidade, mas como evidência da assimetria moral imposta a mulheres e homens). Essa assimetria não é moral, é política. Serve para manter mulheres sob vigilância constante e homens acima de qualquer suspeita.
Mesmo com leis que reconhecem a gravidade da violência de gênero, a realidade é que a impunidade ainda é regra. Muitos agressores não cumprem nem metade da pena. Muitos são reintegrados à sociedade como se tivessem pago uma dívida que nunca será equivalente ao dano causado. Enquanto isso, mulheres sobreviventes carregam marcas físicas, psicológicas e sociais para o resto da vida. As que não sobrevivem se tornam números, estatísticas que chocam por alguns dias e depois desaparecem do debate público.
A violência contra mulheres sempre foi um dos pilares estruturais da sociedade. Ela organiza relações, delimita espaços, controla corpos. Não é um erro do sistema, é parte do seu funcionamento. Por isso, falar de feminicídio não é insistência exagerada, é necessidade política. É preciso falar todos os dias, em todos os espaços, especialmente nas redes sociais onde essas narrativas violentas se espalham com tanta facilidade. Páginas, comunidades e espaços voltados ao público feminino não são bolhas de vitimismo, são ferramentas de sobrevivência.
Muitas mulheres ainda vivem violências disfarçadas de cuidado, controle disfarçado de amor, opressão disfarçada de proteção. Muitas ainda acreditam que o problema está nelas, que estão exagerando, que estão sendo ingratas. Falar é romper esse ciclo. É mostrar que não estão sozinhas, que o que vivem tem nome, que o risco é real. É tirar a violência do campo do privado e expor sua raiz coletiva.
Não queremos privilégios, queremos viver. Não queremos guerra, queremos segurança. Não queremos silenciar ninguém, queremos parar de morrer.
A geração Z tem uma ferramenta poderosa: a capacidade de transformar experiências individuais em narrativas coletivas. De dar nome ao que antes era vivido em culpa e isolamento. Falar de abuso emocional, de controle, de violência psicológica não é modismo. E é exatamente por isso que esses espaços femininos incomodam tanto. Porque expõem padrões. Porque desmontam narrativas. Porque mostram que nunca foi um caso isolado.
Enquanto a misoginia for tratada como opinião e não como violência, enquanto discursos que desumanizam mulheres forem tolerados como entretenimento, enquanto a sociedade continuar pedindo calma a quem sangra, o feminicídio continuará sendo a face mais cruel de uma cultura que escolheu proteger o agressor e desconfiar da vítima.
Falar é um ato político. Escrever é resistência. E repetir esse debate todos os dias não é obsessão, é estratégia. Porque uma sociedade que aprende a ouvir mulheres é uma sociedade que começa, finalmente, a mudar.
Nota da autora : Este texto não foi escrito para confortar, relativizar ou abrir espaço para “os dois lados”. Ele existe para incomodar. Para lembrar que essa violência não é exceção, é regra. Que não é exagero, é estatística. Que não é caso isolado, é estrutura. Se em algum momento a leitura pareceu dura, talvez seja porque a realidade é ainda mais dura. Sou mulher, jornalista e mãe de uma menina, e me vejo na responsabilidade de usar um espaço onde existe escuta para falar do que realmente importa. Espero que este texto chegue às mulheres certas e que, juntas, possamos entender que não estamos sozinhas nessa luta social pelo mínimo, o direito de existir.
Publicado originalmente na Newsletter Capsule Letter – Substack