O tapete vermelho do Grammy 2026 deixou claro que, mais do que tendências passageiras, a moda vive de memória. Arquivos históricos, cinema e alta-costura foram revisitados por algumas das principais estrelas da noite, transformando o evento em uma verdadeira aula de referências visuais — da Paris dos anos 1990 à Hollywood clássica.
Chappell Roan foi um dos grandes destaques da noite ao apostar em um vestido Mugler no tapete vermelho. A peça fazia referência direta a um dos modelos mais icônicos criados por Thierry Mugler, apresentado em 1998 durante a Semana de Alta-Costura. Com silhueta escultural, cintura marcada e construção arquitetônica, o look evocava o glamour futurista que consagrou Mugler como um dos maiores visionários da moda. Era uma escolha poderosa, quase performática, que dialoga com a estética teatral e ousada da própria Chappell.
Para subir ao palco, a artista fez uma mudança estratégica — e igualmente simbólica. O vestido escolhido foi da Rodarte, o mesmo modelo usado por Keira Knightley na estreia do filme Desejo e Reparação (Atonement, 2007). Delicado, fluido e carregado de emoção, o look trazia um romantismo etéreo que contrastava com a força do Mugler, mostrando duas facetas da artista: a diva dramática e a musa sensível.
O cinema também foi fio condutor no visual de Doechii, que durante a cerimônia surgiu com um look inspirado no figurino de Isabella Rossellini no cult A Morte lhe Cai Bem (1992). Assinado pela Givenchy, o conjunto remetia ao glamour sombrio e satírico do filme, equilibrando sensualidade e ironia — marcas registradas tanto da personagem quanto da própria rapper. As peças já haviam sido apresentadas na coleção de inverno 2025 da maison, reforçando como referências cinematográficas continuam sendo combustível criativo para a moda contemporânea.
Seguindo essa mesma linha de nostalgia pop, Addison Rae apostou em um look da Alaïa inspirado em Marilyn Monroe no clássico O Pecado Mora ao Lado (1955). A silhueta evocava a famosa cena do vestido branco esvoaçando sobre a grade do metrô — talvez uma das imagens mais icônicas da história do cinema. A escolha não foi aleatória: Addison já havia feito referências diretas a Marilyn em seu último álbum, lançado em 2025, consolidando a atriz como um símbolo recorrente em sua narrativa artística.
Já Lady Gaga, como esperado, transformou o Grammy em um espetáculo à parte com diversas trocas de figurino. Entre elas, o momento mais marcante foi durante a performance de Abracadabra, quando a artista surgiu com um look de arquivo de Alexander McQueen, originalmente apresentado na coleção de inverno de 2009. Dramático, conceitual e carregado de emoção, o visual sintetizava perfeitamente a essência da “Mother Monster”. No encerramento da cerimônia, Gaga ainda homenageou outro momento histórico de McQueen, vestindo uma criação de 1999, feita em tafetá, do período em que o designer era diretor criativo da Givenchy — uma referência direta à era mais sombria e experimental da maison.
No fim, o Grammy 2026 deixou uma mensagem clara: a moda não é apenas sobre o agora. Ela se constrói em camadas de memória, revisitando ícones, ressignificando imagens e conectando passado, presente e futuro. Em uma noite onde o arquivo foi protagonista, as celebridades provaram que vestir história é, também, uma forma de contar quem se é.
